Opinião
Um peru fuj�o e A��o de Gra�as
Ontem, 4ª quinta-feira do mês de novembro, comemorou-se o Dia de Ação de Graças. Data das mais prestigiadas nos Estados Unidos e no Canadá, tem uma história de 390 anos de festejos. A memória da colonização do Novo Mundo registra que, no ano de 1620, a situação ficou assaz dramática para os pioneiros que buscavam se instalar no Norte da América, mais precisamente na localidade batizada como Nova Inglaterra (fronteira com o atual Canadá). As colheitas feneceram sob o frio, antes mesmo de o inverno se afirmar, e a fome tomou conta do vilarejo onde, tempos antes, o navio Mayflower havia despejado puritanos fugitivos das pressões religiosas na velha Inglaterra. Mas o verão de 1621 turbinou as plantações e a fome foi afastada. Visualizando a prosperidade futura, resolveram fazer uma festança. Perus foram sacrificados, e até índios nativos foram convidados para o que poderiam ter entendido como uma pajelança. Puritanos além da conta, os colonos resolveram exorcizar qualquer semelhança com pândegas ancestrais e registraram a festividade com a cristã denominação de Dia de Ação de Graças. Como ainda a aliviar a consciência puritana dos traços pagãos dos sacrifícios de animais aos deuses, os americanos criaram outra tradição a partir dos anos 60, quando o então presidente John Kennedy ?anistiou? dois perus, salvando-os das panelas no dia anterior à comemoração. Anteontem, o presidente Obama cumpriu o ritual. Em parte, pois um dos agraciados logrou salvar-se por conta própria, fugindo antes da benesse. Estima-se que, ontem, cerca de 45 milhões de perus tenham virado banquete sacrificial. Barack festejou o indulto a apenas uma ave, ao contrário da dupla tradicional. E observou: ?O perdão ao peru é um dos poucos atos que o presidente americano pode fazer sem autorização do Congresso?. Progressivamente emparedado nas votações do Capitólio, o gesto e o comentário de Obama revestem-se de significado especial, quase único, nesses tempos onde o primeiro presidente negro está cada vez mais isolado na Casa Branca, tal qual os pioneiros do Mayflower, à espera do milagre de brotar uma colheita salvadora.