Opinião
ADVENTO: A ESPERA DE UM SENTIDO
Na música Quem me leva os meus fantasmas?, do compositor e cantor português Pedro Abrunhosa, há dois versos dizendo: ?Quem me salva dessa espada?/Quem me diz onde é a estrada??. Estes revelam uma verdade: a humanidade vive em compasso de espera. Ser complexo e essencialmente desamparado, o homem necessita de algo ou de alguém que lhe devolva o sentido da própria existência, restituindo-lhe a rota para a vida plena. E justamente dessa necessidade nasce a espera. As palavras do profeta Isaías, ?ah! se rompesses os céus e descesses!? (Is 63, 19a), sintetizam bem o drama da humanidade solitária e incapaz de compreender sua própria história, muitas vezes aparentemente contraditória e desconexa. É preciso que o silêncio eloquente do existir seja rompido; é crucial que alguém diga: o ser humano existe de verdade! Existir torna-se um fardo insuportável quando se finge não esperar nada, quando se cai no absoluto absurdo de viver na superfície das coisas. Este é o grande sofrimento do mundo atual. Não se espera nada, e, consequentemente, há uma necessidade enorme de coisas para ocupar e distrair a vida humana. Mas nada disso livra o ser humano de ansiar, no mais íntimo, por algo capaz de lhe devolver a vivacidade do existir. O tempo do advento, iniciado no último domingo, celebra essa espera. Toda a humanidade esperou, o povo de Israel também. E Deus rompeu o seu silêncio em Jesus. Nele, a humanidade descobre que existe de verdade, porque Ele é aquele capaz de mostrar onde se encontram as opções capazes de fazer a vida valer a pena. E este mesmo Jesus virá consumar o silêncio quebrado por Deus. No entanto, entre essas duas chegadas, o Cristo segue vindo ao encontro daqueles atentos aos seus sinais. Ele fala na sua Palavra, presente nas Sagradas Escrituras; faz-se presente nos sacramentos, principalmente na Eucaristia. Mas também vem no cotidiano, nas alegrias, nas tristezas, nos encontros e desencontros da vida; basta saber lê-los. O tempo do advento é o tempo da espera vigilante em um Deus que sempre vem ao encontro do homem, exorcizando os seus fantasmas, dando-lhe um sentido e mostrando-lhe a estrada da salvação. » JOSÉ LUCIANO DUARTE ? diácono ([email protected]).