Opinião
Papel em branco
DOM FERNANDO IÓRIO * Caneta às mãos. Papel em branco. Afinal, um tudo nada, pardacento, como o diria Augusto Abelaire, em Bolor. Este papel está em branco; esse, digitado; mais um outro, publicado. Que surpresas vou imprimir no em branco; os já escritos, digitados, publicados não são surpresas, não me pertencem: são dos outros. Procura-se Deus nas diversas páginas dos jornais. Nada sobre Ele. Quem deseja estabilizar-se, profissionalmente, quem procura uma segurança onde morar, quem deseja deslocar-se para superar distâncias folheia os classificados. Deus, com ser de todas as horas, como mistério real, conservando o tempo, num parêntesis de eternidade, pode encontrá-lo o homem, sem dia marcado, sem hora certa, mas no momento decisivo. Nada melhor para o ser humano, agitado, preocupado, desesperado, em vista da situação econômica e social; amedrontado, inseguro, à procura do futuro incerto; desconfiado de quem, ao seu lado, caminha ou o seu itinerário cruza, nada melhor do que a segurança do ser supremo. Especialistas do comportamento humano, adeptos do ?behaviorismo?, são unânimes quando afirmam existir a síndrome do nosso tempo: o estado permanente de pânico, vivido, cada dia, pelo povo, pelos agrupamentos humanos. Caneta às mãos, o meu papel em branco colore-se de signos convencionais para dizer que este mundo que proclamou a ?morte de Deus?, é o mesmo que declarou a ?dissolução do ser humano? (Levy-Strauss) e a sua própria morte (Foucault), criando a ?multidão solitária? (Riesman). Entretanto, meu papel estilizado vem indicar ao ser humano o mundo novo de ?inesperada primavera?, como profetizava João XXIII, a ?idade nova? de que falava Alceu Amoroso, um ?novo renascer?, conforme o pensamento de Mounier. Meu papel não mais de todo branco, agora fala para revelar a todos os desesperados e angustiados a existên-cia da 25ª hora da esperança, como sendo a 1ª hora, antes da primeira e a última, após a última. É essa misteriosa hora que Georghiou ofereceu a esta multidão angustiada, por isso mesmo dividida. Essa ?aldeia global? de Mc Luhan tem de tudo para ser solidária e fraterna. Ainda resta algum branco, na linha horizontal do meu papel, para que acrescente aquilo de Jorge de Lima em ?Tempo e Eternidade?: ?Não dividamos o mundo. Dividamos o Cristo. Todos ressuscitarão iguais?. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS