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Uma data sagrada, duas religiosidades

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Hoje, 8 de dezembro, é um dia especial para o sincretismo religioso que caracteriza a alma brasileira. Duas crenças distintas concentram suas celebrações nesta mesma data. Encontram-se e desencontram-se simultaneamente. Em paz, felizmente. Para os católicos, é momento de celebrar a Imaculada Conceição de Maria Santíssima, num dos marcos do início do Ano Litúrgico. Reafirma-se nesta data o dogma proclamado em 1854 pelo Papa Pio IX, por meio da bula Ineffabilis Dei, embora a concepção seja festejada, na Igreja do Oriente, desde o século 8. Para a religiosidade brasileira de raízes africanas, o dia é dedicado a uma de suas mais importantes divindades das águas, Iemanjá, orixá cujo nome significa (em tradução livre) ?Mãe cujos filhos são peixes? na língua Iorubá. Buscando safar-se da opressão religiosa de antanho, os ainda escravos buscavam confundir seus algozes ?escondendo? seus focos de adoração pagã africana na iconografia católica romana de seus senhores. E há quem, ainda hoje, queira ver alguma semelhança entre Nossa Senhora da Imaculada Conceição e Iemanjá. Como diria o poeta, ?tudo vale a pena quando a alma não é pequena?. O fato inequívoco é que são duas figuras maternas de personalidades próprias e distanciadas, frutos de raízes culturais independentes. E o mais importante, o fundamental, é que este dia, hoje, ao contrário de épocas passadas, é marcado pelo espírito da tolerância entre os seguidores de crenças absolutamente distintas. Em Maceió esta é uma data singular para os cultos de raiz africana, pois é o único momento no qual celebrações são realizadas abertamente, à vista de todos. Os demais orixás e suas datas festivas são, sem exceção, cultuados inter corporis, em atos fechados, restritos aos ?terreiros?. Nesta data nunca será demais lembrar que Alagoas já viveu o obscurantismo da intolerância e da violência praticada em nome da religião, numa sanha criminosa que teve seu ápice nos idos de 1912, com a perseguição aos ?xangozeiros?. Agora, testemunhando o respeito mútuo entre os que fazem suas oferendas nas praias e os que caminham em procissão, saudemos e nos orgulhemos desta Paz conquistada.

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