Opinião
AO FUNDO, A PAJU�ARA
» MARCOS DAVI MELO ? médico. O mar da Pajuçara estava especialmente calmo. Embora a tonalidade da água ainda não fosse aquele azul-esverdeado que só se encontra ali, no horizonte, nas cercanias dos arrecifes, além das alvas espumas, já existiam prenúncios das cores do verão. Jangadas sacolejantes entravam pela barra trazendo peixe fresco dos cabeços distantes e gaivotas planando e completavam a plácida paisagem. Alguns amigos das caminhadas da orla, à sombra confortável dos coqueirais, tomavam umas poucas cervejas e botavam conversa fora. Afinal, era sábado e alguns momentos ali desestressavam qualquer neurótico de guerra. Eu estava em São Paulo. De lá, me deram fraternos telefonemas, em seguida pagaram a conta e rumaram em direção às suas casas, onde as patroas os esperavam para o almoço familiar. Era mais um sábado ameno e tranquilo. Ao atravessar a avenida pela faixa, um dos companheiros foi brutalmente atropelado por um veículo que, em altíssima velocidade, pegou-o e arremessou-o longe dali. A ambulância o levou ao HGE, onde se constataram inúmeras fraturas, roturas de fígado, bexiga, enfim, um quadro de politraumatismo gravíssimo. Foi submetido a uma primeira, complicada e longuíssima cirurgia que atravessou a noite .Do HGE, foi transferido para a Santa Casa, onde já chegou com grave infecção por superbactéria. Na UTI, inconsciente, entre a vida e a morte, passou quase um mês. Um prognóstico reservadíssimo. Do Talmude: ?A vida de um homem é como a sombra de um pássaro que nos sobrevoa? . Mas conseguiu sobreviver. Neste feriado, ao comemorarmos seu aniversário de 69 anos, em um café da manhã, saudou-o, o colega José Tenório: ?Albérico, quando ao amanhecer, após a demorada e delicadíssima cirurgia, saí do HGE e vi sentados no meio-fio da rua, em frente ao hospital, sua mulher e filha, seus amigos e esposas, todos abraçados e de mãos dadas, mesmo seu estado sendo desesperador, acreditei que você conseguiria sobreviver. E, ainda meio quebrado, mas vivo, aqui você está. Afirmo que aquele momento de comunhão de forças atravessando a madrugada foi fundamental para sua salvação!?. Ao sairmos do café, em frente estava a Pajuçara: Iemanjá, adornada de flores e outras oferendas, adentrava o mar calmo, agora com a pujante cor azul-esverdeada do verão. Jangadas tremulavam, gaivotas planavam e a maresia nos inebriava de vontade de viver.