Opinião
Novamente, eles
De uma das janelas de meu modesto refúgio em Viçosa, olhava tristemente para um dos Édens Caídos quando centenas de fragmentos de palha de cana queimada fizeram com que abandonasse meus pensamentos. Os canaviais estão maduros! Se maduros, os barões do açúcar estão dando altas, sonoras e infindáveis gargalhadas, pois as máquinas dos megaengenhos estão prontas para devorar milhares de toneladas da milagrosa planta de cujo caldo surgem itens que servem para abarrotar de dólares suas supercontas bancárias. Apesar de concentradora de renda, símbolo do culto ao latifúndio, da vassalagem à monocultura, do modo de produção escravista, causadora da expansão da miséria, geradora do êxodo rural e, devido à sufocante fumaça e cinza oriunda das queimadas, responsável nas cidades circunvizinhas pela sujeira e por inúmeros problemas de ordem respiratória, a cana-de-açúcar ainda assume papel relevante na economia do Estado. Só conseguimos entender tal estado de coisas se nos dermos conta de que vivemos num território feudal cujos senhores fazem acordos entre si para delimitar áreas e controlar vassalos, tanto do ponto de vista econômico quanto do político. Se assim não é, como explicar que, em pleno século 21, a economia do Estado ainda esteja praticamente entregue a uma vintena de usineiros que mantêm milhares de trabalhadores sob o tacão de suas botas? Como explicar que o Palácio Zumbi dos Palmares e a Assembleia Legislativa sejam dirigidos por dois príncipes pertencentes à realeza do açúcar? É difícil imaginar o que sentem, com tal situação, os que no passado ensoparam nosso solo com seu sangue, lutando para ser reconhecidos como seres humanos, ter direito à terra, vida e liberdade. Sou obrigado a admitir que a História tornou-se indiferente e perdeu a nobreza ao ignorar o passado e não reparar o presente, trocando o explorador pelo explorado, o opressor pelo oprimido, ?esquecendo as feridas abertas ou mal cicatrizadas?, ainda mais quando não há irradiação da esperança e nada que encante a alma, fertilize as ideias e o comportamento: pesadelos, em vez de sonhos, e aridez. Aridez tão profunda que se opõe a tudo o que é fértil e suave, pois tem início com o dantesco processo de eutanásia salarial que, ao se expandir, atinge quase todas as necessidades do alagoano. E não há rebeldia, pois, aqui, o presente é o passado.