Opinião
A AUT�MATA
Trôpega, arfante, ela vagava, semicurva, pelas vielas úmidas de chuva. Cobria-lhe os seios desnudos um xale roto, que vez por outra escorregava dos ombros, deixando entrever um busto flácido. As vestes, manchadas de sangue, rotulavam-na do crime. Os olhos, sombrios, fitavam o nada, enquanto um ricto endurecia-lhe a face pálida e os lábios. Uma das mãos, ensanguentada, segurava, ainda, a faca coberta de grúmulos vermelhos. Cumprira seu destino: não pensava, não gemia, não chorava; muito menos ria. Não lhe importavam os olhares inquisidores que a observavam. Como uma autômata, ela seguia de pés descalços rua abaixo. Um policial acercou-se dela, tomando-lhe a arma e prendendo-lhe os pulsos numa fria algema de aço, enquanto populares, em reboliço, aproximavam-se dela, curiosos. Sem reação, como se ali só seu corpo estivesse presente, acompanhou o militar; alheia e silenciosa, como se o mundo à sua volta não existisse. E assim, indiferente, seguiu o policial até a delegacia. Não conseguiram arrancar dela uma única palavra. A moça permanecia muda e fria, com aquele olhar imóvel, fixo no vazio. Não balbuciou uma simples palavra de defesa. Trancafiaram-na na prisão, onde permaneceu com a mesma postura ausente, encolhida em um canto. Soube-se, depois, que o homem que matara dera uma dose fatal ao seu único filho viciado em droga. Infelizmente, hoje em dia, a droga parece que tomou conta das cidades. Sobretudo em Maceió. Que solução assumir! Como é triste para os pais ver seus filhos dominados por esses alucinógenos de consequências tão desastrosas, que têm dominado, sobretudo, grande parte da mocidade, no seu desejo de independência, mas que os tornam escravos de um mal tão terrível. Que medidas adotar? Prender quem vende ou quem toma não tem resolvido. O que precisa ser feito é um duro policiamento nas fronteiras do País, ainda mais que os maiores produtores estão à nossa volta. Entretanto, o mirrado número de policiais que existem para guardar tão extensas fronteiras é irrisório. A infame erva gera muito dinheiro; os inconscientes traficantes pouco se importam com o mal que estão fazendo. A atração da riqueza e do conforto que ele lhes traz com esse maldito comércio é muito mais importante.