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Opinião

A MESA DE NATAL

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Era uma mesa rústica, feita sob medida, que ocupava grande parte da sala. A toalha branca que a cobria parecia feita de pedaços retangulares, que se juntavam por lindos bordados feitos à mão. Éramos quinze irmãos, e eu a mais nova deles. Sentada no fim da mesa, olhava com os olhos arregalados toda aquela gente reunida e, ao mesmo tempo, pensava: aquela era minha família e era véspera de Natal. O peru gordo gratinado permanecia no centro da mesa, recheado de farofa e todo adornado de pêssegos, ameixas e outras coisas gostosas. Que delícia! Ao mesmo tempo, sentia pena dele ao lembrá-lo na véspera, cantando no quintal o seu glu-glu. O lado triste das coisas! Naquela época, ainda tínhamos o velho casarão, O Ipiranga, em São José da Lage. Meu pai vinha a Maceió dias antes e comprava na antiga Feira Franca tudo o de que a festa requeria. Chegava com uma mala e uma cesta cheias de coisas gostosas para o grande dia: véspera de Natal. Época de férias, quase toda a família estava ali reunida. Quando ele chegava, punha as coisas em cima da mesa da copa. Eu, às escondidas, chupava algumas uvas e, quando podia, surrupiava uma caixinha de passas, aquela que trazia o desenho de uma moça de vestido longo vermelho. Fazia isso às pressas, com receio de que minha irmã mais velha interferisse naquele prazer com um beliscão. Mas achava que valia a pena a minha ousadia. Havia tantas outras coisas gostosas na mesa, como queijo do reino, pernil, lombo assado, arroz com passas! Eu pensava que ainda havia as sobremesas! Mas, apesar disso, com o olhar aflito, esperava que se lembrassem de mim, pobre menina, ponta de rama de uma enorme família. Alguém, então, fazia meu prato com o que estivesse perto de mim. O peru, ai que dor quando o partiram! O seu canto ainda ficara em meus ouvidos. A velha vitrola entoava cânticos de igreja, mas não me recordo quais eram. Lá fora, as árvores iluminadas afugentavam os pássaros. Creio que somente um desavisado trinaria sua melodia fazendo parte daquele ambiente. Quando me mandaram deitar, lancei um olhar para a mesa comprida. Vi com tristeza o seu aspecto abandonado, solitário. Já não precisavam mais dela. Passando pelo quarto do santuário, vi o Menino Jesus sorrindo e isto me conformou. Aquele sentimento de ternura voltara a tomar conta de mim. Ainda era véspera de Natal.

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