Opinião
FELIZ ANO NOVO, IRAQUE!
Encerra-se o ano com a retirada das tropas americanas do Iraque. Toda guerra tem por base a estupidez humana, e esta não fugiu à regra. Quando falo em estupidez, me expresso no sentido lato da palavra, ou seja, fora de propósito, por falta de juízo e inteligência, reflexo de incivilidade. Segundo estimativas oficiais, os Estados Unidos gastaram, no conflito, por volta de 770 bilhões de dólares ? sem contar outros gastos orçamentários que levam a cifras de mais de um trilhão de dólares! Isso é café pequeno diante das milhares de mortes de civis e soldados, e nada que possa justificar tal aberração. A guerra tem a capacidade de transformar homens em feras, e esta também produziu as suas. Documentos americanos com 400 páginas de interrogatórios, que eram guardados como segredos de guerra, foram descobertos junto com outros documentos confidenciais por um repórter do New York Times num depósito de lixo em Bagdá e revelam os horrores descritos por testemunhas vivas do conflito. O coronel R. Kelly testemunhou o episódio em que fuzileiros se fotografaram atirando nas pessoas! Outros, imaginando que estavam sendo constantemente atacados, decidiram usar a força primeiro e fazer perguntas depois. Motoristas que se aproximavam dos pontos de fiscalização sem parar eram considerados homens-bomba e ?quando um carro não para, ele cruza a linha de fogo e os fuzileiros entram em combate... Há pessoas dentro do carro que são mortas e não tem nada a ver com a coisa?, testemunhou o sargento major Edward T. Sax, oficial sênior do batalhão. ?Tive fuzileiros que atiraram em crianças em carros e tive que lidar com eles individualmente, porque eles tinham muita dificuldade em lidar com isso. Uma coisa é matar um insurgente num conflito aberto, outra coisa muito diferente é ferir uma mulher ou ferir uma criança ou, no pior caso, matar uma mulher ou matar uma criança.? Os soldados não conseguiam entender porque tantos iraquianos não paravam nos postos de fiscalização. Analfabetismo ou problemas de visão? Os envolvidos foram enviados à corte marcial, mas muitos foram absolvidos e o governo do Iraque passou a não mais aceitar julgamentos fora de sua esfera de competência. Em 6 de setembro de 2006, o então presidente americano, George W. Bush, afirmou: ?Você sabe, uma das partes mais difíceis do meu trabalho é conectar o Iraque à guerra, ao terrorismo?. Anacronismos à parte, ninguém merece!