Opinião
ERA UMA VEZ O CICLO NATALINO ALAGOANO
Encerra-se hoje, com o Dia de Reis, o Ciclo Natalino. No Nordeste brasileiro, mui especialmente em Alagoas, esse período de festas populares é um traço cultural histórico que, infelizmente, vem perdendo substância com o passar dos anos. Tradicionalmente esse tempo de comemorações é aberto na véspera de Natal e estende-se até 6 de janeiro, dia no qual, até o ano 354, comemorava-se o nascimento de Cristo. A data referencia os três reis magos que, conduzidos pela estrela-guia, visitaram o recém-nascido Jesus. Este é o único momento onde esses personagens aparecem nos relatos. A mudança da data de nascimento de Jesus Cristo começou a ser processada ainda no ano 350, por determinação do Papa Júlio I, que findou declarando 25 de dezembro como o Dia da Natividade. Em 519 o Imperador Justiniano proclamou a data como feriado nacional. Mas, século a fio, continuaram fortes as celebrações da Epifania do Senhor (manifestação de Jesus Cristo como o enviado de Deus Pai, com o filho do Criador se dá a conhecer ao Mundo) no sexto dia do ano. Assim, o Dia de Reis não só não desapareceu do mapa como consolidou-se como festa irremovível, mesmo com a transposição oficial da Epifania, pela reforma do calendário litúrgico, em 1969, para o segundo domingo pós-Natal. Estamos, portanto, numa das datas mais expressivas da cristandade. Alagoas comemorava o Dia de Reis com muito entusiasmo, despedindo-se dos folguedos natalinos, como o Pastoril, a Chegança, o Guerreiro, e fazendo a derradeira visita às lapinhas (desmontadas no dia seguinte). Era o Ciclo Natalino espaço privilegiado para as festas de rua. As praças ficavam repletas de gente e as torcidas dos cordões azul e encarnado disputavam, jornada após jornada, a liderança e bem-querença entre a Mestra e a Contra-Mestra. Saudosismo? Talvez. Mas com certeza, tamanha tradição (e beleza), ainda arraigada na alma popular alagoana, se resgatada em formato contemporâneo, produziria um componente artístico e cultural praticamente único no Brasil, turbinando mais ainda o grande potencial turístico desta época em toda a Alagoas.