Opinião
O VELHO JANEIRO E O TEMPO DA GRA�A
Se olharmos as reportagens do mês de janeiro dos anos anteriores e não verificarmos as datas, estaremos convictos tratarem-se de matérias atuais, feitas há pouco. Passada a festa da virada de ano, começa a velha cantilena do velho janeiro nos meios de comunicação: os preços do material escolar a ser comprado, os impostos, IPTU, IPVA, a serem pagos. Há também as chuvas no Sudeste ? calamidades anunciadas ? e, como não poderia faltar, a dengue ameaçando o verão da cidade maravilhosa. A verdade é que janeiro é um mês enfadonho. Para quem não está gozando férias, a sensação durante esse mês é de que o tempo é um peso insuportável a ser levado como uma canga no pescoço. Tudo parece um ciclo repetitivo de fatos, no qual encontramo-nos encarcerados. E aqui surge a tentação de dizermos como o autor do Eclesiastes: ?o que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer; nada há de novo debaixo do sol (1,9)?. Na mentalidade dos povos da antiguidade, o tempo era visto exatamente assim, uma sequência de eventos cíclicos. E a realização humana consistiria em se libertar do tempo impiedoso, devorador da vitalidade. Com o povo judeu, o tempo ganha outro sentido. Trata-se do conjunto de dias, meses, anos, criado por Deus. E é no tempo que o Criador vem fazer história com a humanidade. Essa história, por sua vez, é progressiva, caminha para um futuro sempre melhor, até alcançar sua plenitude. E, na concepção de tempo judaica, o homem não é um ser passivo, esperando o futuro vindouro. Imbuídos da certeza de que Deus caminhava com eles, os israelitas faziam o futuro acontecer, construindo-o no presente. Com a chegada de Jesus, torna-se evidente que o tempo é o espaço da manifestação da graça de Deus. E é preciso, conforme diz o apóstolo, não deixá-la passar em vão (cf. 2Cor 6,1). O tempo, portanto, não é regido pela cronologia do deus pagão chronos, sempre pronto a devorar a vida humana, mas é kairós, tempo da renovação permanente da humanidade na graça de Deus. O tempo está cheio da presença de Deus. Consequentemente, os velhos janeiros e sua rotina ganham um sentido diferente, tornam-se uma oportunidade de crescermos humanamente; de tal forma que, embora aparentemente os fatos sejam os mesmos, as lições tiradas deles e a maneira como os experimentamos são sempre novas.