Opinião
GOVERNAR �... (LEMBRAN�AS DE M�OPE ASTIGM�TICO)
Menino ainda, Míope Astigmático o meu nome, há cerca de 2.500 anos ouvi do Mestre: o ideal é apenas um modelo que devemos buscar permanentemente, ainda que conscientes de que jamais o alcançaremos em sua plenitude. Estas palavras foram registradas por Platão, o mais importante discípulo de Sócrates, em sua obra notável, A República, na verdade a percepção do Mestre para uma cidade ideal, a cidade justa em que poderia viver o homem justo. Para a construção de uma cidade justa, a utopia possível, o Mestre advertia: a não ser que os amantes da sabedoria e da sensatez se tornem os dirigentes das cidades, a não ser que as diferentes naturezas que hoje praticam a filosofia e a política, uma excluindo a outra, unam estas capacidades, não haverá paz nem entre os homens nem entre as cidades... Como governar é remediar os males alheios, entendia o Mestre caber o governo a quem não tivesse males a remediar, insistindo que seria indecoroso pleitear o governo. Lembro-me, tantas vezes seguindo o Mestre, de suas discussões sobre o homem corpo e alma, a alma dominando o corpo e forjando no homem a sua natureza, a alma residindo em cada homem em sua cabeça, em seu peito ou em suas entranhas. Os homens dominados por sua razão, por suas paixões ou por seus interesses, ensinava o Mestre. No momento de sua concepção, os deuses colocariam nas almas dos homens o ouro, a prata,o bronze ou o ferro. O homem com o ouro em sua natureza, sua alma residindo em sua cabeça, razão e justiça a sua essência, o homem capaz de conciliar filosofia e política, sem males a remediar, o homem justo e sábio que, portanto, fosse obrigado a governar, não poderia contaminar sua alma de ouro com a posse do vil metal terreno que tantas e tão graves crises tem provocado. Lembro-me perfeitamente da observação crítica do Mestre compreendendo as circunstâncias da condição humana (todo o respeito aos que hoje atuam em mister tão nobre): ora, jovem Míope Astigmático, que os sapateiros se corrompam e sejam o que não são é algo que não representa grande perigo para a comunidade; mas quando os guardiães das leis e do governo o são apenas em aparência arruínam a cidade! Entre muitas lembranças, os argumentos dos sofistas que me doíam tanto, Adimanto e Glaucon, entre outros, para quem a vida dos injustos era muito melhor que a vida dos justos. Eles entendiam que sempre que uma pessoa julga poder cometer impunemente uma injustiça comete-a. Assim, os sofistas do século 21 encontram-se perfeitamente na história de Giges, honesto pastor de ovelhas, o mais honesto dos homens de seu tempo.