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EM MEM�RIA DA ADOLESCENTE QUE APENAS QUERIA SER FELIZ

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?Bem, vê-se que você distingue entre o homem maduro e o muito jovem. Do primeiro, você espera que tenha boa situação; do outro, você não exige esse prerrequisito, não é verdade?? ?A pessoa madura já tem um modo de ser definido ? quer positivo, quer negativo ? e basicamente imutável. Se esse modo não se coaduna com o seu, não se ligue a essa pessoa, exceto se você deseja modificar seu próprio modo? A pessoa que foi a única fonte de informação para A adolescente que apenas queria ser feliz, publicado na Gazeta de Alagoas do último domingo, remexendo em seus papéis, encontrou registro por escrito, de sua autoria, da entrevista que concedera à jovem depois assassinada na cidade interiorana de onde viera a Maceió. Ele não se opôs à minha ideia de publicá-lo. ?Será uma homenagem nossa a essa jovem infeliz, corajosa e estimável?, falou, havendo meditado por um instante. Eu não disse outra coisa. A visitante desconhecida Ela estava sentada diante de mim, em meu gabinete de trabalho. No rosto agradável, havia ar de esperança. Vestia blusa simples e saia curta, como a maioria das jovens. Alguém lhe falara a meu respeito, e ela viera conversar comigo. Suas palavras iniciais foram: ? O senhor é viúvo, como me disseram? ? Sou. ? Não tem mulher nenhuma? Nem fora de casa? ? Não. ? Por quê? ? Porque as mulheres maduras ? quero dizer, as dentre elas que têm qualidades apreciáveis ? ou estão casadas, ou têm companheiro permanente, ou se ocupam de alguma atividade de que vivem e não consentiriam em reduzir de modo substancial o tempo que a isso dedicam: a nenhuma delas requestarei. Quanto às que passam o dia a ralhar com a empregada e a ostentar espírito rasteiro, é evidente que seriam causa de tormento para mim, que abomino toda manifestação de vulgaridade. ? E as moças? ? Essas preferem, como é natural, homens moços. E eu, como você pode ver, não posso oferecer mocidade. ? O senhor não parece velho. ? Você é gentil. É verdade que meu cérebro funciona bem, que ando normalmente e que consigo correr um trecho, se necessário. Mas não me pareceria sensato, em nada que se refira ao físico, tentar competir com pessoa saudável e de idade muito abaixo da minha. ? O senhor gosta mais de mulheres maduras ou de moças? ? Não discrimino ninguém em razão de idade. ? É? ? Mas faço uma diferença entre as mulheres maduras e as muito jovens. ? Que diferença? ? Deixe que lhe faça uma pergunta antes de responder à sua. Você aceitaria viver com um homem de idade madura que não dispusesse de emprego, profissão ou recurso legal que permitisse vida sem aperreio? ? Não, acho que não... ? Mas, se você encontrasse um rapaz trabalhador e disposto a estudar que se interessasse por você, talvez você aceitasse viver com ele, ainda que, no momento, ele contasse apenas com um emprego mal pago, não é? ? Se ele fosse como o senhor diz, e se, de verdade, gostasse de mim... ? Bem, vê-se que você distingue entre o homem maduro e o muito jovem. Do primeiro, você espera que tenha boa situação; do outro, você não exige esse prerrequisito, não é verdade? ? É... ? Se você faz essa exigência ao homem maduro é porque, se ele não goza de situação aceitável, provavelmente não virá jamais a gozar dela. Como conquistaria ele, na maturidade avançada, o que não foi capaz de conquistar na mocidade, quando dispunha de maior capacidade de trabalho e da energia que caracteriza a juventude? O jovem, ao contrário, se trabalhador e estudioso, poderá vir a alcançar meios de existência bem mais satisfatórios no futuro, não é? ? Acho que sim... Não é errado querer melhorar de situação... ? De fato, não é, e, agindo de acordo com esse pensamento, você nada estará fazendo de censurável. Respondo agora à sua pergunta. A pessoa madura já tem um modo de ser definido ? quer positivo, quer negativo ? e basicamente imutável. Se esse modo de ser não se coaduna com o seu, não se ligue a essa pessoa, exceto se você deseja modificar seu próprio modo de ser ou adaptá-lo ao dela. Você não terá êxito em modificá-la, pois seria necessário despender enorme quantidade de energia e tempo a fim de conseguir dela a mais insignificante das mudanças. Já a pessoa muito jovem, ao contrário, está aberta à mudança, seu modo de ser ainda não está de todo fixado. Será relativamente fácil modificá-lo, se ela o desejar ou nisso consentir. E, se a modificação que você pretende levar a efeito contribuir para elevá-la culturalmente ou socialmente, tanto melhor para os dois. ? O que o senhor espera de uma companheira? ? Que seja exatamente isso: companheira. Que se associe aos meus projetos, que contribua, com sua participação, para que eles se concretizem. E, se ela tiver seus próprios projetos, desde que não sejam incompatíveis com os meus, farei o possível para que eles se tornem realidade. ? Talvez ela não saiba como ajudá-lo... ? Não posso eu ensinar-lhe o que eu próprio saiba? Não posso pagar a outra pessoa para que lhe ensine o que eu próprio não souber? Não saberei esperar, estimulando-a sempre, até que ela esteja apta a apoiar-me? Garanto-lhe que sim. ? E que idade deve ter a pessoa que quiser ser sua companheira? ? Essa idade só não poderá ser inferior àquela em que todos adquirimos a capacidade de dispor de nós mesmos, de acordo com o Código Civil. ? E qual é essa idade? Eu lhe disse. Ela deixou escapar um suspiro, como se houvesse recebido uma pancada. Objetou: ? Mas onde eu moro tem homens que moram com moças da minha idade... Fitei-a, sinceramente comovido. Eu realmente queria acolhê-la. Perguntei: ? E qual é sua idade? Ela hesitou, mas respondeu. Meu rosto deve haver expressado certo abatimento. Ela permaneceu sentada uns instantes, era óbvio que desejava ficar. Mas eu lhe disse, com brandura, que a lei não o permitia, infelizmente. Ela levantou-se devagar. O ar de esperança desaparecera. Conduzi-a, desalentado, até o portão externo. Depois de abri-lo, inclinei a cabeça diante dela, com genuína simpatia. Só agora dou-me conta de que, ao fazê-lo, estava reverenciando todas as adolescentes indefesas deste País e dos demais. Eu sentia tristeza ao vê-la afastar-se, decepcionada, em companhia da pessoa encarregada de conduzi-la à estação rodoviária. Que seria dela, pobre adolescente de menos de dezesseis anos, neste mundo sem entranhas? Eis tudo o quanto havia no escrito de meu informante. Quem leu A adolescente que apenas queria ser feliz sabe do que ela teve de sofrer depois, assim como de seu assassínio na cidade interiorana.

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