Opinião
SAUDADES DE ANILDA LE�O
Quando o corpo de Carlos Moliterno desceu ao túmulo, Anilda Leão, postada ao seu lado, despediu-se dele cantando suavemente a Ave Maria. Domingo, 8, enquanto o corpo de Anilda descia ao jazigo, recordava-me de alguns destes momentos inesquecíveis: Luciana, a filha que mora na Inglaterra, acompanhava o grupo que tinha Anilda e Carlos Moliterno, Teotônio Vilela, Osvaldo e Dedê Vilela; iam para o Cumbe, herdade à beira da lagoa Mundaú, onde os esperavam acepipes e selecionados aperitivos que encantavam, e ainda encantam, os poucos escolhidos. Precisavam atravessar o canal, e o barco nunca chegava. Cansados da espera e sequiosos pelas fartas mesas e selecionadas garrafas que os esperavam, foram tomados pela impaciência: lamentos, imprecações, e nada do barco aparecer. Um garboso e silencioso pangaré pastava nas cercanias. Lá para as tantas, a inquieta Anilda lançou um longo e poderoso trinado, com sua soprânica voz. No que retirou o animal de sua letargia, fazendo-o relinchar estridentemente aos quatro cantos do mundo: o barco apareceu imediatamente. Alguns anos atrás, já bastante idosa, Anilda aceitou nosso convite para participar de um dos primeiros desfiles do Pinto da Madrugada. Sua intrépida alma não se acomodou apenas ao papel de foliã. Requereu e saiu como uma das cantoras do jovem Coral do Pinto, que ainda desfilava em cima de um pequeno caminhão sob o sol impiedoso do meio-dia de fevereiro. Junto com as outras meninas, cantou e encantou os foliões. Mas pagou perverso tributo à inclemência solar: depois de várias horas sob o sol abrasador, quando da empolgada interpretação da Cabeleira do Zezé, passou mal e foi direto para a emergência médica. Lá para o fim da tarde, Luciana, que se dirigia ao Evangelho, inquietou-se com a ausência da mãe. Soube, então, que estava na Santa Casa, onde, angustiada, a procurou. Anilda, já refeita e altaneira, pediu-lhe que lhe trouxesse roupas limpas para ir para casa, mas Luciana, irritada com a atemporal ousadia da mãe, levou-a para casa do jeito que estava. No Parque das Flores, enquanto seu corpo descia à ultima morada, os Seresteiros da Pitanguinha cantaram a música a ela dedicada. Eliezer Setton cantou o injustificadamente pouco executado Hino de Maceió, de autoria de Carlos Moliterno, e Luciana, suavemente, cantou a Ave Maria, da mesma forma que Anilda cantara quando despediu-se de Carlos Moliterno.