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Opinião

UMA HOMENAGEM SENTIDA

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A perspectiva do tempo tem o poder de abrandar emoções e lembranças. Mas, em certos casos, aumenta nosso poder de análise de fatos ocorridos. Como o tempo corre celeremente, detalhes podem ser esquecidos, mas imagens, encontros, encantos e vivências profundamente sentidas permanecem vivas e bem gravadas no baú da memória. Vou, sem mais delongas, citar um fato que me causou tristeza e agrediu minha sensibilidade. Estive ausente em viagem no início do novo ano. E ao voltar, tomei conhecimento do falecimento de uma amiga, uma mãe pelo coração, jamais esquecida: Eude dos Santos Leite, ou dona Eude Macário, como a chamávamos. Esse conhecimento datou de várias décadas. E a conheci por meio do convite de seu irmão José Beder Júnior, para irmos à Granja Conceição, em Bebedouro. Um lugar aprazível, recanto precioso da natureza, em que se aliavam à sombra das árvores os sons dos pássaros. Era administrada por Durval Macário, agrônomo. Ele conhecia muito de plantas, pesquisava a evolução delas, sempre atento às ervas daninhas. Um horto florestal de valor inestimável. Ali, passei agradáveis fins de semana. Reuniam-se no lugar as belas harmonias da natureza. Um patrimônio perdido. Impressionou-me dona Eude: alta, loira, cordial, tinha riso franco e uma palavra amável e acolhedora. O Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, fala que a mulher islâmica deve ter três qualidades básicas: bondade, inteligência e beleza. Eu acrescentaria duas prioridades a mais: saúde e bom humor. Assim, d. Eude: um feixe de luz em meu caminho. Ela insistiu para que eu voltasse sempre. Era uma forma de forçar seu irmão a aparecer mais. Se ousasse uma definição diria que ela era poetisa; não das que fazem versos, mas das que sentem a poesia sutil das coisas. Durvalzinho, seu único filho, crescia a olhos vistos. No fim de semana ela cantarolava músicas da época e repetia poemas de memória. Lembro-me de versos de um desses poemas: ?Mãe... criatura tão cara/ alma tão querida e santa/ do filho o mais santo altar.../ Quem perde essa gema rara/ nunca mais há de encontrar./?. Passou à eternidade deixando um vazio para desconsolo dos que a amaram.

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