Opinião
Desconstruindo o mito da impunidade eterna
Vaticina a filosofia popular que ?a justiça divina tarda, mas não falta?. Sobre a justiça humana pesa, desde tempos imemoriais, a pecha de tardar e faltar. Uma generalização injusta, mas presente em todo o mundo, especialmente nas sociedades onde os percalços no desenvolvimento não se restringem ao campo da economia. Depois de 13 anos de idas e vindas e da ampliação da opressora sensação de impunidade e de impotência perante o crime, o veredicto sobre os acusados pela ?Chacina da Gruta? devolve à população razões para confiar na Justiça brasileira e alagoana. O maior incentivo à violência e aos instintos criminosos é a impunidade. Às sucessivas protelações cometidas sobre o julgamento dos acusados do múltiplo homicídio, que ceifou as vidas de Ceci Cunha, Juvenal Cunha, Ítala Maranhão e Iran Maranhão, a realização do Tribunal do Júri (concluso ontem) assoma, perante a opinião pública, como o sonhado porto seguro, depois de 13 anos de tormenta. Durante todo esse tempo, a nau da esperança cidadã balouçou ao largo das aspirações cidadãs por uma justiça célere, competente e exemplar na aplicação da Lei. Sofreu, mas não naufragou. Enfim, vencidos recursos protelatórios que se apresentam como infindos, as sentenças foram proferidas após um julgamento impecável, cujos trâmites foram acompanhados em tempo real por toda a Alagoas e boa parte do Brasil. Uma indelével lição. Todo crime deve ser implacavelmente combatido. E alguns combates merecem atenção redobrada, pois um delito coroado pelo sucesso faz escola. O assassínio como método para ?resolver? questões políticas é algo abominável e nenhuma comunidade pode transigir na cobrança de apuração rigorosa e punição exemplar de toda e qualquer ocorrência deste tipo; o rigor da Lei é a melhor das prevenções contra essa deformidade moral. Alagoas deu um passo adiante na restauração de sua civilidade. Não apenas se ajustaram contas com o passado, mas se descortina um caminho seguro para o futuro, ao se apontar que a impunidade não é um mal invencível. Sem pretender ser divina, a justiça dos homens provou que tardar não é sinônimo de faltar.