Opinião
ENQUANTO DURAR...
O matrimônio é um pacto de amor e de vida. Para sempre... Com boa dose de cinismo, alguns afirmam que o amor é eterno enquanto durar. Já um professor de Direito Canônico em S. Paulo nos advertia, seminaristas estudantes, com uma ponta de ironia: ?Vejam bem: alguns matrimônios são válidos? (?). Se são válidos, esses ?alguns?, de que falava o canonista, não podem ser dissolvidos. É bom lembrar aqui, mais uma vez, que a Igreja não anula nenhum matrimônio válido, mas os tribunais eclesiásticos declaram que aquele casamento foi nulo desde o primeiro instante. O que surge agora é gravíssima questão, suscitada nada menos do que pelo teólogo Joseph Ratzinger. L?Osservatore Romano publicou longo artigo, em mais de duas páginas, observando que se tratava de trecho de obra pouco conhecida do cardeal Ratzinger, publicada em 1998. Num encontro com o clero da diocese de Aosta (Itália), em 2005, pouco depois de sua eleição, o Papa tratou da questão do matrimônio como sacramento de fé e afirmou: ?É particularmente dolorosa a situação de quantos tinham casado na Igreja, mas não eram verdadeiramente crentes e só o fizeram pela tradição, costume familiar (eu acrescentaria ?por exigência social?), e depois se separaram, contraindo um segundo casamento não-válido diante da Igreja, converteram-se, encontraram a fé e agora sentem-se excluídos dos sacramentos. Este é realmente um grande sofrimento e, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, convidei várias Conferências episcopais e especialistas para estudarem este problema: pode haver sacramento celebrado sem fé? E se realmente é possível encontrar nesse fato uma instância de nulidade, porque ao sacramento faltou uma dimensão essencial de que é a fé, não ouso dizer (humildade e sinceridade de nosso grande Papa teólogo). Pessoalmente, pensava assim, mas, nos debates que tivemos, compreendi que o problema é difícil e ainda deve ser aprofundado?. Em resumo, o teólogo Ratzinger quer dizer nesse texto que o sacramento exige a fé; se não há fé, não é sacramento. A conclusão é simples: se não é sacramento, não possui indissolubilidade. Nesses dois últimos anos, nos vários casamentos que presenciei na Basílica do Coração de Jesus no Recife, não aparecia nada de fé, mas simples cerimônia pomposa, com muita luz, muita música e muitos trajes da última moda, mas nada de oração, de devoção e de fé. Seriam eles sacramentos de fé, portanto válidos, portanto indissolúveis? Ou simples cerimônias sociais e portanto dissolúveis? Respondam os canonistas...