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Opinião

UM DEUS QUE J� N�O � LEVADO A S�RIO

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Caro Leitor, pense nestas palavras seguintes. São inspiradas num texto do teólogo Joseph Ratzinger, o nosso Bento XVI. Fazem refletir... Quem tentar discorrer hoje sobre Deus, diante de um mundo que só se preocupa com o imediato e o palpável, depressa sentirá o estranho e surpreendente de semelhante iniciativa. Provavelmente, logo descobrirá que a sua situação encontra descrição exata no conhecido conto de Kierkegaard sobre o palhaço e a aldeia em chamas. A estória conta como um circo ambulante na Dinamarca pegou fogo. O diretor manda à aldeia vizinha o palhaço, já devidamente fantasiado para a representação, em busca de auxílio, tanto mais que havia perigo de alastrarem-se as chamas por meio dos campos secos, alcançando a própria aldeia. O palhaço corre à aldeia e suplica aos moradores que venham com urgência ajudar a apagar as chamas do circo incendiado. Mas os habitantes tomam os gritos do palhaço por um formidável truque de publicidade para atraí-los ao espetáculo; aplaudem-no e riem às gargalhadas. O palhaço sente mais vontade de chorar do que de rir. Debalde tenta conjurar os homens e esclarecer-lhes de que não se trata de propaganda alguma, nem de fingimento ou truque, mas de coisa muito séria, porquanto o circo realmente está a arder. Seu esforço apenas aumenta a hilaridade até que, por fim, o fogo alcança a aldeia, tornando excessivamente tardia qualquer tentativa de auxílio; circo e aldeia tornam-se presas das chamas. Esta estória pode dizer algo do crente maduro e responsável, que deseja falar da sua fé à cultura hodierna. Quantas vezes se sente incapaz de transmitir aos homens a sua mensagem. Em sua roupagem de palhaço medieval ou de outro remoto passado qualquer (não é assim que somos rotulados?), o crente não é levado a sério. Pode dizer o que quiser, continua como que etiquetado e fichado pelo papel que representa. Qualquer que seja seu comportamento e seu esforço de falar seriamente, sempre se pensa, de antemão, que ele é um ator que representa. Já se adivinha o assunto de sua mensagem e se sabe que apenas está fazendo uma representação, com pouco ou nenhum nexo com a realidade. Por isso, pode ser ouvido sossegadamente, sem ser levado a sério, sem inquietar a ninguém com as coisas que afirma. Não há dúvida: existe algo de angustiante neste quadro, algo da angustiada realidade em que se encontra o anúncio da fé. O grande desafio dos cristãos é fazer o mundo compreender que falar de Deus não é uma palhaçada e o mundo e a vida não são um circo...

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