Opinião
Pedir-se-� perd�o a Euclydes Malta?
Aproveitando o embalo do perdão pedido, bem que se poderia avançar um pouco mais e, ainda no mesmo episódio centrado no ?Quebra?, dever-se-ia alargar o foco sobre aquele momento histórico. Uma questão essencial parece estar sendo contornada, ou negligenciada, em parte das teses esposadas em elegia ao pedido de perdão governamental. A moeda do ?Quebra? também tem seus dois lados: na Cara, os seguidores dos cultos afro-brasileiros foram selvagemente atacados (o governo se autocritica por não tê-los protegido então); na Coroa, está o extraordinário apoio dado pelo governo de Alagoas aos mesmos cultos afro-brasileiros até a onda do ?Quebra? desabar. É-se indispensável, em tal episódio reparador, restaurar-se também a verdade sobre o papel do governador Euclydes Malta como cidadão e líder político adepto e apoiador irrestrito dos xangôs alagoanos. Em verdade, só se entenderá corretamente o ?Quebra? se os preconceitos ideológicos (de boa parte da intelectualidade e da maioria dos ativistas) contemporâneos forem simultaneamente quebrados. As barbaridades cometidas só se explicam com o entendimento dos condicionantes políticos daquela conjuntura. O governo alagoano, enquanto instituição, não pode assumir apenas o ônus da tragédia quando foi este mesmo Poder Constituído o assegurador sistemático, por pelo menos 12 anos ininterruptos, da mais completa liberdade de culto. Foi Euclydes Malta quem financiou a expansão e consolidação dos terreiros na capital alagoana. O ?Quebra? marcou uma virada radical na política em Alagoas, com os ?xangozeiros? sendo sacrificados, tal qual oferenda, no altar em louvor ?democrático? ao que se rotulou como ?queda da oligarquia Malta?. E agora? Para quem se acostumou ao uso do maniqueísmo como ferramenta de análise parece ser difícil reconhecer esse duplo e antagônico papel governamental; e mais chocante ainda é, para as almas apequenadas, enxergar um elitista branco e rico, um ?oligarca?, como o maior benfeitor da religiosidade de matriz africana na história de Alagoas. Mas a vida é assim mesmo: rica em contradições. Só não vale ?apagar? a parte que lhe desagrada.