Opinião
Duas faces de uma moeda falsa
Duas faces de uma moeda falsa Ninguém nunca disse ser simples enfrentar a questão das drogas. Mas por baixo de pomposas formulações sobre essa tragédia humana, tão antiga quanto complexa, muitos se amarram a bases simplistas, quando não simplórias, para a formulação de suas teses. O exemplo da recente iniciativa de desocupação da Cracolândia, em São Paulo, é um dos mais ricos na exposição dessas frágeis e contraditórias teorias reducionistas sobre o como melhor abordar a questão da droga. Em essência existem dois suportes simplistas básicos para essa complicadíssima questão. São duas faces duma mesma moeda. Falsa moeda, diga-se logo de início. De um lado estão os que defendem a ação repressora como panaceia; noutro lado fixam-se a turma da tolerância com o vício e da compaixão para com o viciado. Um só enxerga o traficante, desdenhando o viciado. Outro só vê o viciado, fechando os olhos para o traficante. Ambos estão errados. Esses dois lados da mesma moeda falsa se digladiam cotidianamente, inutilmente. No teatro de operações da Cracolândia, cada time tem jogado o mesmo jogo: centra nos problemas ululantes para destruir as opções de solução proposta pelo adversário. ONGs e entidades do tipo pranteiam o abrupto fim da zona livre da traficância e consumo de drogas em pleno Centro da maior cidade brasileira; Simpatizantes das ações unicamente repressoras apontam, eufóricos, para a desativação de um dos mais abjetos e promíscuos perímetros urbanos no mundo. Cada um só enxerga os erros da tática alheia e o que considera seus próprios acertos, e o problema segue adiante, metamoforseando-se, sem que uma solução efetiva seja construída. Em verdade, para desgosto de ambos os lados, qualquer equacionamento sério para o problema das drogas e do tráfico terá de associar ações repressoras com iniciativas sociais. Reprimir e recuperar são as duas faces da verdadeira moeda. Uma mesma política , com dois braços, terá de ser posta em prática: uma mão direcionada para o traficante, outra mão voltada para o viciado. Sem esse tipo de abordagem dupla não haverá solução.