Opinião
UM PADRE E UMA MISS�O SOLID�RIA
Recentemente, em Recife, conheci um médico alagoano que me contou uma história, sua própria história, digna de registro, pois nela a realidade supera a ficção. Aos dez anos, diz ele, pai e mãe foram mortos em desastre de automóvel; foi morar com uma tia e não se ajustou ao regime disciplinar da casa, de rigor e opressão. Perambulou dias seguidos pela rua esmolando para comer. Encontrou um padre que lhe ofereceu levá-lo para sua residência, onde já abrigava 20 crianças. Aceitou, e daí em diante começou o que seria o seu ciclo de felicidade: companhia de garotos, escola, aulas de religião e vestuário. Ali passou dois anos até que um dia o padre lhe perguntou: ?Olha, há uma família em Recife que quer adotar um garoto; é gente boa e não tem filhos?. Vacilou. Era trocar o certo pelo duvidoso. Mas o casal era simpático e o convenceu. Tratou-o como filho e após alguns anos não era mais o adotado e sim o filho que eles desejavam. Estudou nos melhores colégios e concluiu o curso de medicina. Curioso, perguntei o nome do padre que o acolhera, respondeu-me com a voz pausada e emotiva: Padre João de Barros Pinho. Ele já passou à eternidade. Padre Pinho. Conheci-o bem. Em 1950, após uma missa na Igreja do Livramento, um participante da Juventude Universitária Católica, então existente, apresentou-me ao sacerdote. Ele me perguntou onde morava: numa pensão da Rua do Sol, respondi. Ele riu e disse: ?Tenho uma pensãozinha na Rua Cônego Machado; com o dinheiro arrecadado dos que ali moram sustento 20 meninos de rua?. Uma semana depois mudei-me para a pensão que os estudantes chamavam de ?reduto de beneficência?. Um padre diferente. Batina desbotada (ainda preta), surrada, chinelos tipo sertão. Na face, um sorriso largo, voz persuasiva, boa conversa e um bom conselho. Sempre apressado. Quando me lembro dele, penso em como defini-lo. Talvez com a expressão do filósofo Humberto Rohden: ?Um homem espiritual, um pleni-homem, afirma o Deus do mundo e o mundo de Deus?. Reunindo-se a semente que nascia da solidariedade àqueles 20 meninos acolhidos, tivemos, na projeção do tempo, a criação de Juvenópolis, uma das mais positivas obras de amparo ao menor. Padre Pinho merece ser bem mais conhecido pelas novas gerações.