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Opinião

CARLOS MOLITERNO, 100 ANOS

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Filho de imigrantes italianos, o menino Carlos veio à luz há exatamente 100 anos, para cumprir um destino voltado ao ofício das Letras. Cedo, largou os estudos para ajudar no sustento da mãe e das irmãs, completando-os depois com aulas particulares. Iniciou-se aos 15 anos na alfaiataria, mas no comércio estava o anseio dos jovens de então e, assim, entre outros empregos, passou pelo Banco do Povo e pela Agência Dodge, chegando à gerência da Souza Cruz, sempre bem avaliado pelos patrões; sobretudo os ingleses da multinacional do tabaco, que pretendiam removê-lo para outra praça, o que recusou. Era enraizado em sua terra. Apesar dos convites, nunca deixaria o seu sururu de capote, o siri de coral, a carapeba, os amigos que tanto prezava. Foi no hábito de frequentar sebos e livrarias que esse destino começou a se cumprir. Entre os livros amontoados dos alfarrábios, veio a conhecer figuras como Jayme de Altavila e Théo Brandão, iniciando amizades que atravessariam décadas. Nos antecedentes do casamento com Anilda Leão, que provocou rumor em Maceió, foi desses e de outros amigos que veio o apoio que precisava para enfrentar a hipocrisia reinante e unir o seu destino à mulher que o acompanharia até o fim. Servidor público exemplar por 30 anos, Carlos Moliterno era um homem dedicado ao trabalho. Mesmo com o reconhecimento obtido em vida, nunca tirou os pés do chão. Se, como poeta, registrou o desencanto com os descaminhos da vida pessoal, foi ao compromisso com a cultura que dedicou os melhores esforços. Mesmo em horas de lazer, fazia contatos e articulava ações voltadas àquela causa. Diretor de Assuntos Culturais da Senec, seu período movimentou toda a cena artística. Falecido a 19 de maio 1998, teve a obra enaltecida pelos meios culturais e a mídia em geral, mas não mereceu do setor público ? de Maceió sobretudo, de que é autor da letra do Hino oficial ? uma homenagem à altura desse legado. Batiza a biblioteca da Semed, e só. Curiosamente, seu nome foi dado, por pouco tempo, à rua onde viveu 44 anos, no bairro do Farol. Homenagem cassada por uma ex-prefeita, após abaixo-assinado malandro e inexplicado. E sem nenhum protesto das entidades culturais a que dedicou parte da vida. Hoje a Rua Goiás leva o nome de um delegado de polícia, parente de algum edil maceioense. Por certo, um homem digno também. Coisas da província.

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