Opinião
Demandas imediatas
Um Brasil repleto de contradições e reclamando mudanças de rumo tão delicadas quanto urgentes será o horizonte do novo presidente da República. O modelo básico do Plano Real esgotou-se em inúmeras contradições, empurrando a sociedade para o fundo do poço da exclusão social, da falta de perspectivas e da dependência externa total a um sem-número de grandes e vorazes credores. Como um ícone pagão, a moeda estável continua sendo objeto de culto místico, esquecendo-se o caos social gerado a partir da artificialização dessa ?estabilidade? monetária. Esse modelo irreal sustentou-se aos trancos e barrancos por oito anos, elegeu e reelegeu os autoproclamados pais do ?real?, mas em seu ocaso revela um semblante cruel, num perfil que conjuga desemprego, interrupção do desenvolvimento e incapacidade de inserção altiva na economia globalizada. Para o novo presidente, o desafio é a retomada do desenvolvimento num cenário onde as obrigações financeiras cresceram como se nunca tivessem suas prestações pagas. A dívida pública ? segundo analistas ouvidos pelo jornal carioca O Dia ? fechou o primeiro semestre em R$ 750,3 bilhões e dá um bom exemplo da magnitude do desafio imposto ao futuro governo. Nesse mesmo cenário, o Brasil conseguiu ir além dos limites aceitáveis em se tratando do peso da carga tributária, que hoje é situada em torno dos 34% do Produto Interno Bruto. Na verdade, apenas a indústria de impostos cresceu nos governos FHC. É um consenso que não se pode mais tirar sangue de pedra através do aumento da carga tributária. A retomada do desenvolvimento é a única saída. E esse caminho tem inúmeros obstáculos e opositores, todos situados no apoio aos grandes ganhadores do projeto Real. Os grandes credores e especuladores de largo espectro não aceitam ver reduzidas suas generosas fatias. A grande maioria do povo brasileiro não suporta mais viver sem nenhum naco de prosperidade. Ao novo presidente, a cidadania deverá ser insistente, desde já, em suas demandas de futuro.