Opinião
Freio de arruma��o no consumismo?
Um dos problemas da economia brasileira é a pouca propensão nacional para a poupança. Em verdade, a compulsão consumista não é uma característica exclusiva, e muitas são as sociedades, nos velhos e novos mundos, esmeradas na gastança. Muitas serão as explicações sociológicas para esta característica perdulária, e todas certamente terão sua base real. Alguns remeter-se-ão ao colonizador português (alvo preferencial do nacionalismo saudosista), outros alfinetarão nossas raízes africanas (com algum tempero racista), uns lembrarão sobre os conceitos indígenas anteriores à acumulação primitiva. Explicações à parte, o fato é que qualquer sociedade para ter um mínimo de base, face a seu próprio crescimento, tem de se apoiar em sua poupança interna. Há muitos anos o então ministro do Superior Tribunal de Justiça Humberto Gomes de Barros visitou a China. Em Pequim, teve a atenção despertada por um magistrado chinês que, apontando para um enorme casario pobre, conhecido como Hutong, explicou: ?O senhor está vendo aqueles casebres? São pobres. Mas debaixo de cada colchão de cada uma dessas casas está um bocado de dinheiro. Um dia esse dinheiro virá à tona e, aí, a China será outra para o resto do mundo?. Nós, brasileiros, temos preconceito para com a poupança, mormente confundida com usura e pão-durismo. Mas uma alvissareira mudança parece raiar no horizonte: segundo uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) recuou 3,8% no período de fevereiro a março. Um pequeno sinal, mas que aponta para uma mudança estratégica para o futuro brasileiro. Infelizmente o Brasil tem, historicamente, apoiado seus programas de crescimento sobre o consumo, relegando a produção (especialmente a indústria de bens de capital) à condição de coadjuvante em meio a verdadeiros carnavais consumistas. E as quartas-feiras de cinzas, duríssimas e melancólicas, não só nos chegam como demoram sobre nossas vidas. Quem sabe este enredo, um dia, mude?