Opinião
JESUS, MANASS�S E DROGAS
Como já acontece em outras áreas onde o governo, em suas três esferas de administração (federal, estadual e municipal), apresenta limitações, a iniciativa privada resolve ocupar o espaço para acolhimento e tratamento de dependentes químicos, ofertando as chamadas comunidades terapêuticas (CT). São tantas, que já se organizaram em federação. Há poucos meses, chegara a Maceió o Instituto Manassés, obra do pastor de mesmo nome que se espalha pelo País. Instalado na área do Stella Maris, em residência comum edificada em lote de 12x30m, rodeado por prédios de apartamentos, abriga 30 dependentes químicos para tratamento baseado em fortalecimento da estrutura espiritual, significando fé em Deus para buscar recuperação e reintegração social com o abandono do uso de drogas. Manassés contraria as orientações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, sequer possui autorização para o funcionamento de seu instituto e dificilmente terá. O funcionamento irregular impacta de forma significativa a convivência urbana, pois todos os dias, às 5h30, os vizinhos são contemplados com a oração do Pai Nosso gritada por 30 homens, seguidas de mais três durante o dia, finalizando às 22h, como se fora a ?canção de despertar? para a noite de sono. Afrontando princípios determinantes para a recuperação de dependentes químicos, os pacientes de Manassés podem ser vistos por toda Maceió, fardados com calça azul, camisa branca com o nome de Jesus em letras garrafais e bolsa a tiracolo atravessada no peito. Na bolsa, brindes que Manassés oferta à venda, principal fonte de renda para o funcionamento da instituição. Assim, o dependente químico em tratamento anda pelas ruas, mantendo contato com todas as circunstâncias motivadoras que o levaram à permanência no uso de drogas, os chamados ?gatilhos? que determinam a recaída deles, principalmente o dinheiro das vendas dos brindes. Conheço e reconheço o trabalho de muitas comunidades terapêuticas instaladas em Alagoas e São Paulo, mas confesso que não encontrei nenhuma como a Manassés. Qualquer desavisado que observar a sua funcionalidade poderá concluir que ali funciona clube de sociabilidade discutível, concentração de time de futebol, menos uma comunidade terapêutica. Os dependentes jogam sinuca e dominó o dia todo e todo dia, os resultados são ouvidos pelos vizinhos por meio das vibrações e lamentos de vencedores e vencidos. O barulho é a regra, o silêncio a exceção. Por mais boa vontade que tenha o pastor Manassés, os dependentes químicos não merecem tratamento tão discutível, ainda mais em nome de Jesus.