Opinião
SAL�O DOS PASSOS MEMOR�VEIS
Um grupo de alunos do antigo Colégio Diocesano, ao retornar das aulas, ao passar pela Rua do Comércio, nesta capital, diante de um velho prédio da Justiça, conhecido como Sala das Audiências, observava que, do primeiro andar, emanavam vozes de oradores inflamados. Uma escada, íngreme e sombria, dava acesso ao salão. Um dos alunos tinha enorme curiosidade em conhecer aquele ambiente de julgamentos. Um guarda civil postado à porta do prédio não permitia a entrada de menores. Mas o menino aguardava, com ansiedade, uma oportunidade para vencer a barreira da proibição. Em uma manhã, ao voltar do colégio, observou que o local estava livre e rumores de vozes ecoavam na calçada. O menino subiu rapidamente as escadarias para descobrir o cenário encantado. O clima de um julgamento da Justiça, seus componentes, seu ritual, os procedimentos e o simbolismo da instituição. Um senhor de beca preta falava e gesticulava com emoção. Suas palavras tinham um sabor especial, vinham em defesa de alguém e em nome de uma causa. Na mesa principal, um cidadão de olhar grave detinha, sobre a mesa, uma campainha e um livro volumoso. Outras pessoas, devidamente formalizadas, acompanhavam atentamente os debates. O menino não compreendia os procedimentos da sessão, mas, fascinado pelo clima do julgamento, ouvia as palavras proferidas da tribuna, que ecoavam no ambiente como uma prece e uma sugestão de liberdade. Ao voltar para casa, recolhido em seu quarto, reviveu os instantes do julgamento. Sua alma ficara impregnada pela imagem marcante e sedutora da tribuna. Após vários anos daquele episódio, o menino se torna um jovem bacharel. Na solenidade de conclusão do curso da vetusta Faculdade de Direito de Alagoas, numa memorável noite de dezembro, sobe à tribuna como orador oficial da turma concluinte. Sentado na congregação dos professores, estava o tribuno da antiga Sala das Audiências, o inspirado mestre penalista Cyridião Durval. Na tribuna do salão nobre, tão rica de emoções como a velha tribuna que descobrira um dia no passado, aprendi mais uma vez ? os sentimentos e a bravura conduzem as palavras, para erguê-las sobre a sabedoria de todos os acontecimentos.