loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

PATRIM�NIO MEMOR�VEL

Ouvir
Compartilhar

Transcorria o plúmbeo ano de 1969, o AI-5 permeava a Nação. Nos teatros e redações, se fazia censura prévia e se amputavam aleatoriamente partes fundamentais das obras de arte. A manu militari: perseguições, prisões e execuções de esquerdistas; a facção armada da extrema esquerda respondia com igual violência: sequestros, assaltos a bancos, execuções. Em Ipanema, cinco companheiros de noitadas lítero-alcoólico-recreativas ? Jaguar, Sérgio Cabral, Claudius, Prosperi e Tarso de Castro ? resolveram criar um jornal, O Pasquim, onde eles e outros intelectuais pudessem, driblando a censura quando possível, publicar o que desse. O primeiro número, 26 de junho de 1969, com Chico Buarque e Ibrahim Sued, teve como ponto alto um artigo de Millôr Fernandes, onde afirmava: ?Não estou desanimando vocês não, mas uma coisa eu digo: se esse jornal for mesmo independente, não dura nem 3 meses. Se durar não é independente!?. Para meus contemporâneos que esperavam ansiosos cada número do Pasquim, cinco meses depois eram cem mil exemplares semanais e o hebdomadário circulou até novembro de 1991, 22 anos depois! Provavelmente, Millôr acertou mais vaticínios do que errou enquanto preponderou no independente Pasquim. Foi um dos intelectuais mais brilhantes de nossa história e é muito cruel que o tenhamos perdido poucos dias após a partida do genial Chico Anysio. Foi-se, simultaneamente, parte do melhor do patrimônio intelectual nacional. Ficam suas obras, amorável patrimônio. Nesse sentido de preservar nosso patrimônio, essa semana, com suporte do Instituto Arnon de Mello, foi lançada a obra Patrimônio Memorável, dos solares intelectuais Douglas Apratto, que redigiu o belo texto, e Carmem Lúcia Dantas, que registrou: ?pouca coisa de original resiste de nosso patrimônio arquitetônico e essa obra muito ajuda a preservar o que resta. É nossa identidade que precisa ser preservada?. Preservar a memória, a identidade, em um País e um Estado desmemoriados, é uma árdua tarefa, que tem nos autores dois incansáveis defensores, alinhados com Oscar Wilde, quando afirmava ser a memória um diário que todos carregamos conosco. Fustigado pela senectude, Millôr, porém, manteve o humor: em A Bíblia do Caos, afirmava que o pior da velhice era ainda conservar uma grande capacidade de conquista, levar mulheres pra cama com a maior desenvoltura, e não lembrar pra quê.

Relacionadas