Opinião
DOS S�MBOLOS RELIGIOSOS
Havia uma nação indígena, bem aqui, do lado de cá do Atlântico, ao Sul do Equador. Eram selvagens, de uma religiosidade primitiva; adoravam as forças da natureza: o sol, que dava os dias, a lua, que regia a maré, a nuvem, que trazia chuva. Viviam em aldeias dispersas; cada uma vivendo de acordo com o habitat e, portanto, venerando o deus que mais lhes conviesse. Os caçadores preferiam o sol. Os pescadores, a lua. Os sertanejos, a nuvem. Desconheciam símbolos religiosos. A cruz, símbolo da bondade cristã, só lhes foi apresentada séculos depois pelos ibéricos, junto com as espadas, a escravidão, o sarampo e outras maravilhas da civilização. Antes, coitados, eram bárbaros. Não brigavam entre si por religião, mas por questões particulares. Caçadores disputavam uma anta; pescadores, uma caiçara; vizinhas, um marido. Às vezes, como hoje, descambavam para a violência. Para isso, nas questões mais difíceis, estabeleceram um conselho, ao qual cabia decidir com quem estava a razão. A oca dos julgamentos ficava na aldeia maior, dos caçadores, mas era composta por velhos de todos os lugares. Presidia o conselho, uma velha senhora, severa, justa e cega, que apesar desse último atributo, ou talvez por causa dele, enxergava além das aparências, com os olhos da alma. Um dia, uma disputa ameaçou levar duas aldeias à guerra. Coletores insistiam em desmatar uma área em que os vizinhos caçavam. O caso foi ao conselho. Antes do início, porém, um impasse. Os coletores se recusavam a entrar. Inquiridos pela anciã, deram o motivo. Os moradores locais tinham posto na oca um grande sol, feito de palha. Objeto de devoção. Símbolo de poder. Não acreditavam mais em um tratamento imparcial. Não parecia um tribunal, mas um templo dos caçadores. A anciã, que até então não sabia do adereço, mandou que fosse retirado. A oca é da Justiça, é pública. Credos pertencem à esfera privada, falou. Ninguém entendeu o que ela disse, nem ela mesma, pois essa linguagem e o iluminismo só seriam inventados séculos depois. Então, deu exemplo, tirou a flor que trazia no cabelo, símbolo das adoradoras da lua, e mandou que pusessem em um vaso lá fora. O julgamento começou. Só um dos dois grupos sairia vencedor, mas quem perdesse aceitaria o resultado. De olhos fechados os anciãos pediram, cada um ao seu deus, que lhes permitissem enxergar o que realmente importa ali: o bem comum, a verdade e a justiça. E Deus achou bom.