Opinião
ARDENTE MELANCOLIA
A nostalgia do tango e o inquieto quadro de sua economia marcam o povo argentino. A sensualidade dramática de sua música e seus passos ardentes conduzem a histórias tristes. O ritmo de seus dados econômicos se revela contraditório ? fases de empobrecimento versus euforias periódicas. O antigo ministro da economia argentina Domingo Cavallo dissertou, no passado, sobre um país que poderia ter sido em riqueza e bem-estar para a população. Lamentou os caminhos escolhidos por seus dirigentes, dominados por um exacerbado populismo, pela falta de criatividade política e pelos tristes períodos ditatoriais regidos pelo poder da força. Um dos mais renomados economistas brasileiros, o professor Roberto de Oliveira Campos escreveu, também, sobre as oportunidades perdidas pela pátria argentina. Gostava de lembrar o intelectual portenho Raul Prebisch, conselheiro econômico das Nações Unidas que, ironicamente, reconhecia a Argentina como o único país que planejava o subdesenvolvimento. Os compositores argentinos sempre exaltaram a melancolia ardente do tango. Proclamam os versos de sua música como tristes, porque tristonhos seriam os sonhos do seu povo. Carlos Gardel, Ástor Piazolla, Enrique Discépolo e tantos outros projetam os acordes da sedutora música e a cumplicidade emocional dos dançarinos. Seu compasso extravagante é admirado universalmente. O extraordinário craque de futebol Diego Maradona, de reconhecido talento, símbolo da seleção da Argentina, nossa rival de todas as Copas, não fugiu do destino cruel. Sua trajetória famosa, seus feitos heroicos e o eco de seus gols históricos foram entrecortados por crises etílicas, pelo uso de substâncias proibidas, geradoras de fases adversas e declínio desportivo. Pontuando os exemplos da odisseia argentina, ao lado de suas guerras insensatas, vale repetir o velho provérbio, lembrado por um seu torcedor, diante da recente derrota de um time de seu país em disputa pela Taça Libertadores: ?Não se pode evitar que as aves da tristeza passem sobre nossas cabeças, mas podemos impedir que façam ninhos em nossos cabelos?.