Opinião
CRACK, � POSS�VEL VENCER
No meu caminho para a academia de exercícios físicos, entremeado pelo Corredor Vera Arruda, invariavelmente, me deparo com cenas que logo indicam o uso de drogas: maconha e crack. Naquele espaço necessário aos moradores do aglomerado de prédios que o rodeia, onde se multiplicam cães de todas as raças e tamanhos passeando com seus donos, pareço mais um, farejando drogas. Não preciso do faro canino para constatar o uso frequente de maconha e, como policial, abordo usuários que já reagem: ?Doutor! Já é a segunda vez que o senhor me faz jogar fora meu bagulho?. Não tendo como me desculpar, tento falar sobre o mal das drogas e saio com o compromisso do usuário de sua tentativa de sair do vício. Já vi de tudo, farrapos de homens, mulheres, meninas e meninos de cócoras com cachimbo nas mãos iniciando o ritual do ?craqueiro?. Minha presença incomoda e significa perda para eles, tendo que jogar a pedra fora, ou mesmo interromper a ?viagem? que só ela lhes oferta. Mas a vida sempre nos surpreende. Eis que no mesmo caminho, em área escura transversal ao corredor, encontro dois fortões iniciando o ritual do uso do crack e os abordo com expressão do jargão policial: ?Tão me tirando??. Os dois não se sentem rogados, apenas me reconhecem como policial e logo afirmam que tinham saído da cadeia no dia anterior, após 4 meses, por crime de furto. Perguntei pelos nomes deles e, para minha surpresa, os dois informaram os seus vulgos: ?M... Mago? e ?C... Mago?; estranhei, pois eram, como disse antes, fortões. A surpresa logo fora devidamente explicada, eles afirmaram que na cadeia não tinham tanta disponibilidade de crack e lá se alimentavam regularmente. Compreenderam a confusão que me causaram e, em seguida, sentenciaram que dali a 30 dias estariam novamente magros e consumidos pela droga, sem demonstrar nenhuma preocupação em voltar para a cadeia, pois a única prisão deles é a compulsão pelo uso do crack. Há, no País, ampla discussão sobre a previsão legal da retirada de dependentes químicos das ruas para tratamento compulsório, grande parte deles recém-egressos e futuros hóspedes do cárcere. Com menos dinheiro e mais atitude, o programa ?Crack, é possível vencer? poderia investir na desintoxicação dos dependentes químicos encarcerados, ofertando tratamento especializado na difícil fase da abstinência e, como contrapartida, redução da pena e reinserção social chancelada pelo Estado.