Opinião
LIBERTAS PHILOSOPHANDI
A Europa ainda sofria os efeitos devastadores da Segunda Guerra Mundial. Entre eles a baixíssima natalidade e uma imensidão de jovens fisicamente incapacitados, vindos do front antinazista. Em Paris, principalmente na rive gauche, um grupo seleto de intelectuais elaborava os alicerces democráticos que se abriam. Sartre e Simone de Beauvoir entre goles de kir royale no café Deux Magots debatiam entre outras questões os direitos e a posição da mulher na nova ordem democrática que se avizinhava. Em 1949, Simone lançou a obra O Segundo Sexo, onde entre outras premissas, opondo-se ao puritanismo e ao maternalismo exacerbados do pós-guerra, escrevia: ?A mulher tem o direito de decidir sobre sua vida. O seu corpo é um território livre. Não é só para proporcionar prazer ao homem e procriar?. Essa semana, 62 anos depois, em Brasília, o STF conseguiu descriminalizar o aborto para fetos sem cérebro e, segundo as competentes palavras do ministro relator, Marco Aurélio Mello: ?Livrar a mulher de um cárcere vil em seu próprio corpo ao longo de nove meses para trazer ao mundo apenas um vegetal?. Destacou ainda a necessidade de separação desse tema entre Estado e religião: ?As crenças religiosas não podem justificar a conduta das mães nesses casos. Concepções religiosas não podem guiar as decisões estatais, devendo ficar circunscritas à esfera privada?. A Medicina sabe há muito que, na grande maioria dos países civilizados, isso já foi superado há décadas, que a gestação desses fetos anencéfalos é, infelizmente, absolutamente injustificada: a grande maioria morre logo após nascer e é extremamente arriscada física e emocionalmente para a mãe. Evidente que as organizações religiosas devem se posicionar como qualquer grupo organizado em uma sociedade pluralista. Todavia, o Estado é laico, e a história mostra que quando houve embate com supremacia do misticismo sobre a ciência, como nos casos de Copérnico, Galileu e Giordando Bruno, entre outros, houve elevadíssimo prejuízo para a humanidade. Giordano Bruno, o dominicano humanista executado com um gancho na língua para que não professasse o libertas philosophandi, a liberdade pelo conhecimento, ganho que nos chega sempre com inclemente atraso, estaria, nesse momento, junto com Beauvoir, amplamente justificados por suas bravas lutas humanísticas.