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Opinião

CIDADE VIOLETA - ARTIGO

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Maceió está com as ladeiras estranguladas ? não são os recentes e toscos viadutos que lhe vão tirar os torniquetes entre os membros arroxeados. Parte alta/parte baixa seccionadas: a cidade fendida, bombardeada pelas águas que cariam as pistas e aterram os sem-nem-terra-de-encosta derrubando seus barracos. Subir e descer fazem (ou faziam) parte de sua vida circulatória, mas agora o suplício (a demora) secreta rancores geográficos: morar lá embaixo / morar lá encima. A disputa ? inerente ao que é vivo ? já foi entre a lagoa-Bebedouro-CSA e o mar-Pajuçara-CRB, mas, enquanto isso, o Jacutinga foi-se povoando (fomos subindo o platô onde primeiro um depósito de pólvora guardava em silêncio seu destino explosivo) de casas, chácaras, sítios, fazendas, hoje enclaves protegidos a unhas e dentes elétricos sobre muros altos contra favelas circundantes, invasões e grotas. A Enseada da Pajuçara, seu jardim das baratas delícias ? quando o esgoto clandestino não excede ? preserva-se a friáveis penas, contornáveis, pelo poder de quem lhe mora, mas sair ou voltar de lá se tornou cabuloso devido ao fluxo engasgado entre cima e baixo. A restinga emaranhada e super-entupida de autos inibe a fuga necessária até o Farol, que nos marca um ponto no mundo náutico ? por aqui passa o tráfego da Rua Atlântico, em direção ao Rio, Santos, Buenos Aires para quem desce, e para quem sobe, Golfo do México, Mediterrâneo e o mar-a-quatro. O Farol só serve hoje aos navios e às famílias esquecidas de se mudarem. Virou um bairro de passagem, um corredor com as bordas ocupadas por serviços e moradores bravos-acomodados, acossados pelas barrancas da lagoa de um lado e de outro, pelas do Reginaldo; enquanto os prédios vão comendo casas e quintais lá embaixo, carregando o areal de estacas e de isolante concreto o lençol freático, por sua vez bombardeado pelos poços artesianos que nos servem água salobra (insalubre) e cheia de algas. No mais, caminhões-pipa atravancando o trânsito já lento pelas caminhonetes de matutos boçais, graneleiros de açúcar, ônibus de turismo e carroças puxadas por dostoievskianas alimárias. Maceió não foi feita para automóvel, mas para o pé, carro de boi e bonde, no máximo. O up-grade na velocidade, praticidade e privacidade (a película-fumê nos guarda do sol e os nossos pecados) por aqui, como quase em todo canto, deu pra trás, caranguejou (que verbo alagoano!). O automóvel é a realização de um antigo sonho do homem (ambulante por natureza), sonho de ir e vir sem maiores entraves. Mas o sonho de todos (de tanta gente com carro) anulou o prazer que deveria nos dar o sonho realizado. O direito de (quase) todos vira o direito de (quase) ninguém. A simultaneidade dos sonhos da lata auto-movente mostrou-se inviável. Haverá o dia em que entraremos no carro e de tanto tempo lá não mais sabermos para que foi tirado da garagem. Quem está na parte de baixo vira então um voluntário escravo da caminhada no calçadão, do chope no Lopana ou no Alagoana, do peixe no Acuaba ou no Wanchako e todos do sorvete da Bali; e quem na parte de cima, cativo da Macorronada do Lira, da Casa da Mofada, da Seresta da Pitanguinha, do Canto dos Cantos e do Bar da Pata. O maceioense, até então um ser deambulante, chegado a um deforete na outra parte, encalacra-se nas cercanias do quarteirão sitiado por engarrafamentos ? às vezes provocados pelas atitudes mais primárias, como batidas facilmente evitadas, fila-dupla e crateras lunares que surgem da tubulação enferrujada. Aqui há ruas que afundam e quebra-molas que brotam do nada. Àqueles da Maceió circulante vira quimera a ida amistosa à outra parte da cidade, vai-se apenas por obrigação, mesmo assim dificilmente se cumpre a hora marcada devido aos nós entre lá em cima e lá embaixo. É que Maceió cresceu, dizem os resignados, é o preço do progresso, que para quase todos é sinônimo de asfalto, não importa o que corra na sarjeta em frente à casa, se água servida, se sobra de fossa, se lavagem de calçada. É inacreditável como aqui se gasta água à toa, que vai dar no mar, que secreta algas empesteantes e ignoradas por quem nele não se banha, mal vê sua excitante cor de aquário. Para quem nos mirantes do Farol, lá em baixo a restinga parece um lugar encantado, tão perto, mas impossível de ser chegado por suas ladeiras estranguladas, que deixam roxa de raiva a cidade privada de circular-se, de ir e vir, de ir e ver-se por outro lado. Mas já que o estrangulamento parece inevitável, aqui vai uma modesta e metafórica proposta: a diana do pastoril deveria vestir violeta ? azul e encarnado misturados em pote de tinta ou palheta, e não costurados -; a divisão entre as cores seria então anulada, e não agravada, numa mulher vestida em duas cores elementares (seus cordões, seus partidos, seus lados) a brigarem por dinheiro e aplausos. Violeta seria, pois, a convivência harmoniosa, um circular à vontade entre as partes da cidade. * É poeta e professor de Literatura na Ufal.

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