Opinião
GENTE QUE � HIST�RIA: OL�MPIO DE AMORIM
Embora haja ainda muita gente para lembrar nesta coluna, uma merece atenção e com muita justiça: meu pai Olímpio de Amorim. Este sujeito de nome curto era mais alto do que eu. Sertanejo de Delmiro Gouveia trazia no rosto vermelho, sempre corado, a tez nórdica que se completava com os olhos pequeninos e azuis emoldurado por vasta cabeleira branca, outrora loira. Sua figura lembrava João Paulo II. Igualmente a Carlos Magno, lia corretamente, porém mal assinava o nome. Era motorista de caminhão e morreu no exercício de sua profissão, nos idos de 1979. Por volta de 1955 deixou Maceió e foi trabalhar na fábrica de tecidos Marituba, entre Penedo e Piaçabuçu. Em sua passagem por lá fez o que mais gostava em sua vida: viveu. Criou um time de futebol juvenil, onde meu irmão, 13 anos mais velho do que eu, era o goleiro. Como árbitro das partidas, com outro time juvenil de Penedo era um terror, torcia pelo seu próprio time escandalosamente. Adorava caçar rolinha ou marreca nos arrozais da várzea do Marituba. Tinha uma espingarda de dois canos cujos cartuchos era eu, com oito anos, talvez, que carregava. Uma obrigação que eu tinha enquanto ele estava viajando. Fazia buchas de papelão numa maquineta própria, depois tomava as medidas de pólvora e chumbo, não, sem antes colocar a espoleta no lugar e finalmente socar com a bucha de fios de corda. Como coisa de menino não é nunca tão bem feita. Às vezes dava um tiro fofo e quase não saia chumbo. Ao contrário muitas vezes espedaçava o pássaro. Era chumbo demais! Era louco por cinema e quando inaugurou o Cine São Francisco, ele já chegava de viagem pronto para levar toda a família e quem quisesse ir. Muitas vezes o filme era impróprio, geralmente, por causa de alguma cena mais violenta que hoje é livre na televisão. Meu pai protestava quando a fiscalização reclamava e sempre dizia: ? O filho é meu, quem manda sou eu. E ele dorme. ? E ai de quem impedisse. Todo mundo respeitava o Amorim e quando o filme acabava, ele fazia questão de me exibir dormindo em seus braços. Nunca teve um inimigo em toda a sua vida. Nunca vi meu pai discutindo com ninguém a não ser com minha mãe que ele chamava de Alemanha, porque era muito braba. Meu pai era padrinho de quase todas as crianças do lugar. Mas não sabia rezar e fazia questão de dizer: chame Zélia(minha mãe) porque ela reza. Ele virou uma espécie de lenda na família e inspiração para meus romances. Quem o conheceu sabe que ele é muita história para ser contada.