Opinião
A HIDRA DE MIL CABE�AS
? Amooor, pega um avião, peeegaaa! A voz manhosa, estudadamente glamourosa, de quem acaba de acordar entre aromáticos travesseiros de penas de pavão e almofadados lençóis de linho egípcio, era a da senhora Carlos Cachoeira, pedindo ao marido que providenciasse um avião exclusivamente para seu deslocamento: mais um brinquedo milionário para sua extensa coleção de extravagâncias bancadas com dinheiro da arraigada corrupção nacional. Conta a mitologia grega que entre os 12 trabalhos de Hércules, enfrentar a Hidra que aterrorizava a cidade de Lerna foi o pior. O monstro de 9 cabeças, habitava uma caverna escura, de noite perpétua, à margem de um pântano de águas estagnadas. Toda vez que Hércules conseguia decepar uma delas, outras cresciam no mesmo lugar. Exausto, prestes a desistir, recebe uma mensagem de seu mentor: ?É ajoelhando que nos levantamos; é nos rendendo que conquistamos; é desistindo de algo que ganhamos?. Hércules se ajoelha e levanta o monstro, tirando-o da escuridão para a luz do dia e ele se extingue. Essa mitologia, que antecedeu em milênios Freud e outros estudiosos da mente humana, permanece atual: os mitos nos ajudam a entender as relações humanas e o mundo que nos cerca. Louis Brandeis, talvez inspirado nesse mito e ministro da Suprema Corte dos EUA ficou na história quando, após rumoroso julgamento, cunhou a máxima: ?A luz do sol é o melhor desinfetante?. O ministro do TCU, Jorge Hage, e a presidente Dilma recorreram essa semana ao iluminador bordão, quando explodiram as denúncias sobre as cavernosas ações do megacorrupto Cachoeira e a possibilidade, agora concretizada, de se realizar uma CPMI sobre suas tentaculares operações. As ?tenebrosas transações? são amplas o suficiente para contemplar tanto PT quanto PSDB, PMDB, ministérios e até o Ministério Público goiano. Daí, batizada de CPMI de Todos Contra Todos, caso alcance resultados concretos, pode ser a favor do avanço da democracia no País. A latere, assume o STF o sergipano Carlos Ayres Britto, com o compromisso de por em julgamento o famigerado Mensalão. Declarando-se uma garça branca que pousa na lama e não se enlameia; coincidentemente, poeta com livro de poesias intitulado Um Lugar Chamado Luz; pode marcar sua curta gestão de apenas sete meses, por uma ação digna de Hércules: julgar e condenar a corrupção, hidra brasileira de incontáveis e renováveis cabeças.