Opinião
Problemas e exemplos vistos na Holanda
Noticiada pelo serviço brasileiro da afamada BBC, a matéria ocupa destaque em sites outros, dando conta de que holandeses estariam a negociar ?restos de comida? como forma de combater a crise. Aos brasileiros pouco afeitos ao modo de vida e tradições da economia doméstica europeia, a reportagem parecerá como uma surpreendente descoberta de que a velha e próspera Holanda mergulhou repentinamente no poço sem fundo da miséria absoluta. Uma caricatura estúpida. Mas é perceptível nos traços da citada matéria um conjunto de alterações negativas vividas, abruptamente, pelo povo holandês. A surpresa do aperto no cinto batavo é ainda mais forte em função da economia flamenga ter, aparentemente, passado praticamente ilesa das primeiras ondas destrutivas da crise no Primeiro Mundo. A vida real, entretanto, mostrou que a Holanda não era, nem é, invulnerável aos tropeços da economia globalizada. Avaliam os especialistas que a queda do governo comandado pelo primeiro-ministro Mark Rute precipitou os viventes dos Países Baixos ladeira abaixo, e os efeitos até então represados caíram de supetão sobre os súditos da rainha Beatriz I. O desemprego e os cortes no orçamento mostraram-se subitamente incontornáveis. Daí os holandeses estão a lançar mão de ?soluções criativas para driblar a crise?. Ainda segundo a mesma fonte, ?uma em cada seis famílias tem dificuldades em pagar a conta do supermercado? e, ?em Amsterdã, uma das soluções é se juntar às filas em frente a um dos cinco ?bancos de alimento? da cidade, onde voluntários organizam doações para quem precisa?. Um sufoco digno de terceiro mundo, portanto. Em verdade, grosso modo, será mais correto supor que os neerlandeses estão correndo para preservar suas poupanças familiares e individuais, cortando gasto extra, inventando dribles nas dificuldades. Não estão na miséria e certamente seguirão longe dela por um bom tempo, mas a criatividade do povo holandês mereceria ser mais estudada pelos brasileiros, afinal ainda padecemos de uma histórica incompreensão sobre a importância de poupar.