Opinião
�gua do Camaragibe
FONTES DE ALENCAR * Em Usina Santa Amália1, conquanto o autor tenha dito que se limitara ?à descrição do ambiente que antecedeu a criação da usina e aos acontecimentos imediatamente posteriores à instalação da fábrica?, como registrou no posfácio, creio que Humberto Gomes de Barros foi além da saga do Coronel Laurentino, pois há no seu trabalho recolta de pedaços de vidas humanas e retalhos de cursos das coisas do Alto Camaragibe, lá nas Alagoas. De verdade, tudo que recolheu e o que acrescentou de sua criação espelha a gente simples do interior nordestino forcejando em um tempo que se foi. É certo que a presença do Coronel Laurentino marca o compasso da vida nas suas terras canavieiras. Todavia, não obscurece a presença de outros viventes, festeiros como em Mês dos Três Santos e Dia de São José e heróicos quais os vencedores de Pau-de-sebo e aquele que ?era estribeiro no Engenho Amolar? e enfrentou a mula sem-cabeça. Noutra vertente, o autor mostra a crença singela da boa gente de além e de aquém do São Francisco: ?Na porta de casa, de pinhão-roxo, um arbusto viçoso espanta o azar?. Destaco de Usina Santa Amália, talvez em razão de recôndita nostalgia, os versos de Transporte: ?Nos cambitos A cana em molhos É arrumada Tornando a cangalha semi-arredondada Até os fueiros Dos carros-de-boi aí sendo empilhada Quase pesando Uma tonelada É a rota da seda Ou será caravana cruzando o Saara Será carreira de formiga saúva Em missão cortadeira Dos cambiteiros O relho estala simulando um torneio Disputado a bala Do carro-de-boi O eixo girando Dentro do mancal Um gemido emite Parece chorar? Para enfatizar a importância do trabalho de Humberto Gomes de Barros lembro a valia da coleta de Sílvio Romero entesourada em Cantos Populares do Brasil2, alguns de recolhença na própria terra das Alagoas, como As Lagartixas e Tanta Laranja Madura. O grande Câmara Cascudo, no prefácio da mencionada obra romeriana, relembra o que dissera Sílvio a Coelho Neto: ?Se vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo, metam-se por aí, por esses rincões, passem uma noite num rancho, à beira do fogo, entre violeiros, ouvindo trovas de desafio. Chamem um cantador sertanejo, um desses caboclos distorcidos, de alpercatas de couro e peçam-lhe uma cantiga. Então, sim. Poesia é no povo. ...Poesia para mim é água em que se refresca a alma e esses versinhos que por aí andam, muito medidos, podem ser água, mas de chafariz, para banhos mornos em bacia, com sabonete inglês e esponja. Eu, para mim, quero águas fartas, rio que corra, ou mar que estronde. Bacia é para gente mimosa, e eu sou caboclo, filho da natureza, criado ao sol!? Parabéns, Humberto Gomes de Barros, bardo de meu Brasil. (1) Humberto Gomes de Barros, Usina Santa Amália: saga do Coronel Laurentino Gomes de Barros. Brasília: Edições Dédalo, 2001; 174ps. (2) Sílvio Romero, Cantos Populares do Brasil, anotada por Luís da Câmara Cascudo e ilustrada por Santa Rosa. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 2 Tornos, 1954; 711ps. (*) É MINISTRO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILIENSE DE LETRAS E DA ACADEMIA SERGIPANA DE LETRAS.