Opinião
ELAS POR ELAS
A tez algo pardacenta valeu-me, no Colégio Diocesano da infância, espasmos de preconceitos. Com efeito, com razoável frequência, meu irmão Robson e eu éramos referidos como aqueles ?negrinhos?, quando não, talvez mais adequadamente, como os ?maloqueiros de Bebedouro?. Vez ou outra, um coleguinha se negava a trocar safanões conosco, por nos considerar indignos dessas intimidades. Rememoro esses fatos ao acompanhar o placar da votação no STF, que julga a constitucionalidade das cotas para negros, ?afrodescendentes? como eu, nas universidades. Ninguém de sã consciência precisa de cachoeiras de conhecimentos filosóficos ou jurídicos para saber que a institucionalização do privilégio atenta contra um princípio elementar em todo e qualquer certame intelectual: o mérito. O resto é blá blá blá. Por sinal, só há um negro dentre os deuses do Supremo. À propósito, abril é um mês consagrado não só ao leão, mas também ao macaco, o contribuinte. A grande verdade é que esses caras que há anos brincam de governar e não param de produzir escândalos cabeludos, eles próprios e os amiguinhos, bem que poderiam ter vergonha na cara e pelo menos providenciar escolas públicas com um mínimo de decência ? como aquelas dos ?anos de chumbo?. Sim, porque o nosso dinheirinho minguado, subtraído a pulso, tem servido primordialmente para alimentar colossais fortunas pessoais. É o império do patrimonialismo. O curioso é que se sabe dos nomes, sobrenomes e até das opções de lazer dessa cambada. E nada é feito. Falei de mérito. Em declínio desde a aplicação das famigeradas cotas, esta semana ele bateu ponto em pelo menos dois eventos. Na Academia Alagoana de Medicina, com a posse da médica Hélia Mendes para a cadeira 33 ? substituindo o proctologista Hélio Medeiros. A saudação da nova sócia não poderia estar em melhores mãos: a acadêmica e obstetra de várias gerações Eleusa Passos Tenório. Com mais de 50 anos de exercício diário da profissão, Hélia é uma obstinada guardiã, a síntese do que existe de mais puro na arte hipocrática. A Casa de Gracindo, a vetusta Academia Alagoana de Letras, também gloriosa, elevou-se ao preencher a vacância do seu quadro com a posse da bailarina, professora e escritora Eliana Cavalcante. Escolha das mais felizes, ícone das artes cênicas do Nordeste, a recipiendária foi saudada pela consagrada bailarina das letras, a poeta e escritora Vera Romariz. Artes e letras nunca estiveram tão juntas.