Opinião
PERIGO PERMANENTE
Voltava da posse da colega Hélia Mendes na Academia Alagoana de Medicina escutando um CD do Paulinho da Viola, quando lembrei-me de um documentário onde ele fez uma declaração inquietante: estava em casa lendo um jornal quando a mulher lhe pediu que olhasse o filho enquanto tomava banho. Repentinamente, lá de dentro do chuveiro, a mulher teve um pressentimento, desses que só mãe tem, e deu um grito: clamando que seu filho estava caindo na piscina. Esse documentário veio-me à memória naquele dia por alguns motivos: na hora do almoço, meu neto, João Pedro, treloso como ele só, tinha caído de cima da estante pesada de livros do vovô. Para que subira ali ninguém sabe; saiu-se só com uns arranhões, mas poderia ter ocorrido algo muito pior. Todavia, uma tragédia real tinha me comovido mais que a abertura de CPI do Cachoeira: a morte trágica de uma adolescente aqui em Maceió, após fatal escalpelamento em um circuito de kart da capital alagoana. Pedindo licença ao mestre, imortal, colega e amigo-irmão Milton Hênio, me associo aos pais e avós que se preocupam com a possibilidade sempre presente de acidentes graves com crianças. E as estatísticas são esclarecedoras: em primeiro lugar, os acidentes com crianças até os nove anos ocorrem, na maioria das vezes, muito perto dos pais. E são eventos bruscos, repentinos; como falou o angustiado Paulinho da Viola, após salvar o filho do afogamento: ?Criança é assim, está ali naquela hora e de repente não está mais?. Basta um pequeno descuido e lá vão elas subindo em uma cadeira para olhar a janela, de onde podem botar uma toalha no pescoço para voar, como veem os super-heróis fazendo na televisão; vão abrir os armários da cozinha ou chegar perto do fogão aceso (é na cozinha onde os acidentes são mais graves), ou tentar mexer nos produtos de limpeza ou nos remédios. Elas começam muito cedo sua imatura busca por perigos: engatinhando, já querem enfiar os dedinhos nas tomadas elétricas; puxam as toalhas das mesas que estão cheias de pratos, vasos e talheres; elas não são suicidas, apenas não têm nenhuma noção do perigo a que estão submetidas. Sempre acho que foi muita sorte e grande conquista ter tido, com Ivanelza, três filhos muito ativos e saudáveis e nunca ter tido maiores problemas. Pais e avós, fiquem alertas para a poesia de Omar Kayyam: ?Escuta a/voz da/Sabedoria, que te repete/o dia inteiro: A vida /é breve e tu não és como/as plantas que reverdecem/depois de podadas?.