Opinião
A SERPENTE EST� SOLTA
Alemanha, 27 de Fevereiro de 1933, ainda há brasas e fumaça no que restou do edifício do Reichstag, o parlamento alemão, e os culpados pelo incêndio criminoso já eram apontados pelos dedos rijos e apressados da extrema direita: Os comunistas, aliados aos judeus em uma conspiração para conquistar o mundo, haviam ateado fogo ao símbolo da cambaleante democracia alemã. Com as finanças arruinadas e o orgulho ferido pela humilhação da primeira guerra, os alemães procuravam culpados. As manchetes dos jornais, muitos ligados ao partido nacional-socialista do então aspirante à presidência Adolf Hitler, legitimavam os boatos. Prisões foram feitas, confissões obtidas sob tortura. Hitler, amparado na opinião pública, conseguiu arrancar do enfraquecido presidente Von Hindeburg a declaração do estado de emergência. Mais tarde ficou provado que os comunistas nada tinham a ver com o incêndio. Muito tarde. O partido nacional-socialista conseguira o pretexto que queria para massacrar indiscriminadamente opositores, e, pouco depois, usando habilmente ora o medo, ora o ódio, chegar ao poder, legitimado pelo grosso da população. As consequências horrendas, para os alemães inclusive, ainda são feridas abertas na humanidade. segunda-feira, 19 de Março de 2012. Em Toulouse, na França, um atirador abre fogo na porta de uma escola judaica. Entre os quatro mortos, três crianças. Parte da opinião pública europeia, apressadamente jogou a conta do horror para os culpados mais óbvios: Os extremistas islâmicos, inimigos da vez do mundo ocidental e, em particular, de uma França nervosa, recordista em desemprego, ansiosa com a escalada da violência, inconformada com a perda da prestígio no cenário geopolítico. ?Pas de liberté pour les ennemis de la liberte?, nenhuma liberdade aos inimigos da liberdade, dizia o revolucionário francês Saint Just, guilhotinado em 1794. A frase, aparentemente paradoxal, trai uma perplexidade que soa tragicamente atual na França. É cedo para apontar o autor ou autores da barbárie. Há indícios de participação de neonazistas. Não seria surpresa. Quatro alvos. Os mortos são hebreus, portanto estrangeiros apátridas. A culpa recairia sobre os islâmicos, bárbaros usurpadores dos empregos nacionais. O já desgastado presidente Sarkozi, sai enfraquecido. O discurso dos socialistas, defensores de maior integração, perde apoio popular. Quatro tiros, cruéis, covardes e com endereço certo. A serpente saiu de ovo, ela se alimenta de medo e ódio, ela está a solta de novo na Europa.