Opinião
O VALOR DO QUASE
Qual o valor do quase? De que vale a quase conquista, a quase vitória, o quase amor? Não se trata da velha questão do segundo lugar, no qual ao menos o registro da batalha serve para posteridade. Trata-se de entender como encaixar no filme de nossa existência uma cena que não aconteceu, mas que sabemos, poderia ter acontecido. Em uma lista de aprovados, depois do último, há sempre o próximo. Logo atrás da invenção revolucionária vem sempre a similar, que vinha. Com o sucesso do novo restaurante, do novo tratamento, do novo político, esvai-se o dos outros, que viriam. E os que não foram, quem consola? A morte na praia desola. Quem quer saber da bola que bateu na trave? Na alvorada do quase estão os não promovidos, os não lidos e os não fotografados. Com os não resgatados, os não curados e os não nascidos, faz o quase, o seu crepúsculo. Quem poderia aplaudir? Quem poderia vangloriar? Quem poderia apreciar, admirar, entender? Pior, quem poderia acreditar? Que você quase, quase... Das tantas pessoas que conhecemos na vida, com quantas queremos estar? Se nem na família cabe tudo que é familiar, com quem podemos contar? Se a felicidade na vida é compartilhar, do que vale o indizível? Como não falar? É amargo o sabor da derrota. É doce o sabor de um amor. É fria que se aprecia a vingança. A injustiça traz seu fresco fedor. Do azedo do agouro ao picante da paixão, do podre da velhice ao enxofre tentação, passam todos os sabores, sem que o do quase se possa apreciar. Ao seu sabor insosso falta uma pitada de sal, a salutar. Como a sensação do choque que corta nossa pele e substitui à bronca, como a dor profunda da fratura que rompe o osso e dispensa a advertência, como a traição cruel do ser amado, ensinando mais sobre a vida do que tudo que já foi um dia filosofado, como um raio traz a luz, e a destruição, vem o quase a nos perguntar, de que vale a vida, individual? No tempo da irrealidade, da velocidade e da conectividade. Na época da imagem, da exposição e da publicidade. No mundo das redes de emaranhamento de felicidade, vem o quase, como um terremoto, destruir nossas certezas, rachar nossas verdades. Só segue vivendo quem conseguir flutuar, na serenidade do íntimo de se gostar.