Opinião
Brisa primaveril para uns, tuf�o para outros
Apesar de ter ficado pouquíssimo tempo no ar, uma manchete, editada por site britânico, foi de uma ironia cortante ao se referir às perspectivas eleitorais às vésperas de eleitores franceses e gregos definirem os rumos de seus respectivos governos. O título indagava se, em função das abruptas mudanças que se anunciavam, seria o momento da ?primavera europeia?. A rigor, não está incorreto o uso do termo para exprimir essa possível virada no ?pensamento único? europeu, capitaneado pela Alemanha, onde o centro dos esforços para superação da crise é a defesa radical da manutenção (ou mesmo ampliação) das margens de lucro do sistema financeiro. Os demais setores, até então pagando 100% do pato, se sentem sob o gelo invernal, aspiram a primavera. Só que estação do degelo para esses segmentos não é alvissareira para o ?grand monde? financeiro. Esse calor das ruas, na ótica usurária, é um tufão que lhe sugará lucros vultosos. De chofre, sumiu o termo ?primavera europeia?. Os pregões na França e na Alemanha ainda não se abalaram, mas a primaveril aragem sacudiu bolsas importantes no momento seguinte à confirmação das tendências oposicionistas francesas e gregas. Tóquio recuou 2,78% e Hong Kong baixou 2,61%. Londres caiu 1,93%. As preocupações com mudanças nas regras do jogo fizeram com que a Alemanha, por meio de sua chanceler Angela Merkel, reafirmasse a ordem unida de que ?o compromisso com o pacto fiscal da União Europeia não está aberto à negociação!?. Tem lá sua razão, pois essa pactuação é a garantia aos banqueiros de que seus lucros estão totalmente assegurados. É ilusão achar que as forças de centro-esquerda, vitoriosas nas urnas francesas e gregas, terão o condão de atender 100% às vozes roucas das ruas. O modelo de estado europeu de bem-estar social não pode mais ser sonhado. O que foi ilusão sólida já se desmanchou no ar faz tempo. O grande dilema agora, para os vitoriosos na França e na Grécia, é inventar soluções menos dolorosas que as criadas pelos banqueiros. O momento exige respostas mais pragmáticas que ideológicas.