Opinião
O DIA EM QUE ZAGALLO ME ENGOLIU
Escrevo este texto em desagravo ao conterrâneo Mário Jorge Lobo Zagallo. Era noite do dia 13 de outubro de 2004 quando a seleção brasileira pisou no gramado do Estádio Rei Pelé para jogar contra a Colômbia, numa disputa válida pelas eliminatórias da Copa de 2006. Aliás, esse jogo, que terminou num empate sem gol, significou o primeiro compromisso oficial do selecionado canarinho em campo alagoano. Nas semanas que antecederam o evento, que foi gerado para dezenas de países e projetou Alagoas internacionalmente, vale rememorar fato relacionado às tarefas organizativas definidas pelo governo de Alagoas. À época, eu respondia pela Comunicação do Estado, que resolveu viabilizar um clipe especial sobre a cultura e as potencialidades turísticas da terra. O conteúdo da produção cinematográfica, ilustrado por uma bela canção de Eliezer Setton, seria exibido nacionalmente pela Rede Globo no intervalo do jogo. A equipe empenhou-se para concluir o VT a tempo. Coube a mim a tarefa de gravar um breve depoimento de Zagallo, que fecharia a peça. Após contato com o coordenador técnico da Seleção, fui ao Rio de Janeiro e terminei em seu apartamento, lá na Barra da Tijuca. Meu papel era levá-lo a uma produtora e dirigir seu testemunho, cujo texto havia sido preconcebido. No deslocamento de carro até o centro de gravação, a conversa fluiu de forma descontraída, com Zagallo relembrando seus momentos no Estado e a expectativa do jogo do Brasil no velho Trapichão. Ao avistar a produtora, virei para ele, bem sério, e disse: ? Zagallo, eu preciso dizer algo que está engasgado desde Maceió. Curioso, ele aquiesceu. Aí, desembuchei: ? Quando a gravação começar, você vai ter que me engolir como seu diretor. Ele abriu um sorriso e se submeteu à direção de forma humilde e disposta a ajudar Alagoas, sem cobrança de cachê. E o resultado todo o mundo viu naquela noite do jogo. Agora, quando testemunho um dirigente do futebol alagoano dizer que a CBF precisa de jovialidade, ao se contrapor à suposta ida de Zagallo para o comando da entidade máxima do futebol brasileiro, me sinto na obrigação de reagir, por duas razões: primeiro, a indelicadeza cometida contra quem prestou uma folha imensurável de serviços ao esporte brasileiro e orgulha nossa terra; segundo, pelo fato de achar que o mau cheiro exalado dos bastidores da CBF não será eliminado com dose de juventude, e sim com compromisso, transparência e honestidade.