loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

ENTRE A FANTASIA E A REALIDADE

Ouvir
Compartilhar

O navio aportou em Pireus, perto de Atenas, e pegamos um bus para Acrópole. Lá, respeitosamente emocionados, visitamos as ruínas do Partenon. Mas o guia grego foi, de longe, o mais desleixado de toda a viagem: desinteressado perante tanta cultura e história. No retorno, resolvemos dar uma caminhada pela cidade e só retornar ao navio no fim da tarde. Ideia infeliz: enquanto o tempo passava e se aproximava a hora de o navio zarpar, ficamos atarantados no meio da rua, acenando desesperados, enquanto passavam táxis e mais táxis vagos, sem dar a mínima para os muitos turistas. Conseguimos, com um casal de americanos, quase à força, entrar em um táxi que estacionara para o folgado motorista tomar uns tragos de uzo no boteco. Já se sedimentava a crise iniciada em 2008 e a Grécia mostrava que seu perfil consumista, advindo após a vigência do Euro, com o crédito fácil, os carros de luxo importados (existiam mais porshes em Larissa que em Londres), viagens caríssimas nos transatlânticos de luxo, bares e restaurantes superlotados que tornaram as suas noites as mais animadas da Europa, era insustentável. O pais de Platão e Aristóteles, mesmo com o aprofundamento da crise em 2011, ocuparam o segundo lugar mundial (logo após a Coreia) como o país que mais gastou com cirurgias de aumento de volume do pênis, o que talvez justifique uma noitada de bordel ateniense a 2.300 euros. Na Grécia, configura-se desenfreado fechamento de lojas, desemprego recorde, redução de salários, aumento de impostos, demissão de funcionários públicos e migração dos desempregados das cidades para o campo, onde pretendem cultivar oliveiras e caracóis: uma regressão laborativa, e não uma opção pastoril. Os romanos já usavam o graeca fides (fé grega), afirmando que eles eram inconfiáveis. As recentes eleições gregas mostraram um eleitorado perdido, o qual, todavia, não radicaliza para a saída do euro. Como na França, onde o socialista Hollande venceu apertado. A origem dessa crise nos EUA e nos bancos está consubstanciada, mas os gregos, incluindo seus governos, foram perdulários; a questão é se, dentro dos limites do possível e factível, a saída será pelo caminho da vitoriosa austeridade alemã ou do romântico desenvolvimentismo acenado pelas urnas gaulesas. O Welfare State europeu está em cheque. É o confronto entre a crueldade da realidade e a sedução da fantasia, como na velha e admirável mitologia grega.

Relacionadas