Opinião
UMA VIDA A SER ENCONTRADA
Jesus nos fala em renunciar-se a si mesmo, deixar tudo por Ele, perder a vida... Seria o Cristianismo uma religião tristonha, inimiga da felicidade e da autorrealização do homem? Muitos filósofos já nos acusaram disso. Nosso Deus seria um Deus que sufoca e nos quer alienados da felicidade, submissos, numa eterna autonegação... Mas não é assim! No Evangelho, o Senhor nos fala em perder a vida. Mas se trata de perdê-la para encontrá-la de verdade! Deus é vida, é fonte de vida e criou-nos para a vida. Como dizia Santo Irineu, ?a glória de Deus é o homem vivo?. O problema é que nossa vida somente se realiza de modo verdadeiro e pleno na comunhão com o Senhor, de quem vimos, em quem existimos e para quem vamos. Infelizmente, desde o princípio, caímos na ilusão de que a vida é nossa, que nos bastamos, que podemos decidir por nós mesmos o que é bem e o que é mal, o que é vida e o que é morte. Resultado: tornamo-nos todos doentes, doentes de nós mesmos, doentes de egocentrismo radical e medular. O que somos, de fato? Um poço de contradições, egolatrias inconfessáveis. Consciente ou inconscientemente, tudo colocamos em função de nós mesmos: coisas, pessoas, projetos e até o próprio Deus. Ora, dessa doença que nos aliena, nos atormenta e fecha-nos toda possibilidade de sermos felizes tanto pessoal quanto comunitariamente, somente Cristo nos liberta. Ele, o homem livre, que nunca se buscou a si mesmo, mas viveu total e absolutamente aberto para o Pai, nos convida a que nos deixemos, saiamos do centro e, com Ele, por Ele e como Ele, coloquemos Deus no centro. Seremos curados, seremos reintegrados, seremos senhores de nós mesmos, à medida que nos deixarmos e fizermos a vontade Daquele que não veio fazer a sua própria vontade, mas a vontade do Pai. Assim, toda renúncia cristã, todo convite a levar a cruz e a deixar-se não têm o sentido de autonegação ou doentio desprezo pelo que é humano, mas sim o objetivo de alcançar a verdadeira humanidade, aquela do homem novo, o homem perfeito, Jesus Cristo morto e ressuscitado, modelo e destino de todo homem que vem a este mundo. A liberdade autossuficiente que o mundo de hoje vive e prega não passa de uma ilusão, uma maldita e destrutiva escravidão, feita de egoísmo e imaturidade, que tem como fruto a solidão e a perda de sentido da existência. O sentido e a liberdade somente podem ser encontrados quando saímos de nós em direção ao Salvador.