Opinião
Quando vestir-se � um gesto de protesto
Não se fala noutra coisa no Velho Mundo: tão grave é a crise que até as dançarinas de um dos mais famosos cabarés parisienses entraram em greve. A notícia ganhou generosos espaços editoriais na França e alhures, dando conta de que as bailarinas do famoso Crazy Horse, num gesto radical, vestiram-se em protesto por melhores salários. Numa época onde ativistas das mais variadas bandeiras caçam avidamente motivos para despirem-se frente às câmeras, as profissionais mais qualificadas do mundo na modalidade das coreografias de corpos nus vestem-se para defender melhores salários. A mídia informa, ainda, que este tipo de paralisação é a primeira em 60 anos de atividade. Como a especialidade do citado cabaré são espetáculos onde suas dançarinas apresentam-se totalmente nuas (à exceção de sapatos e, eventualmente, luvas e adereços de cabeça), vestir algo é, simplesmente, acabar o show. E assim fizeram as garotas; imediatamente, o patronato apressou-se em entrar em negociação para que um acordo seja fechado o quanto antes e a casa possa ser reaberta. Mas as grevistas acusam falta de propostas aceitáveis. Evidentemente, essa crise poderia ter acontecido antes ou depois do atual estresse do euro, mas, ao pitoresco conteúdo da greve, foram acrescidas reflexões e ilações sobre o atual momento vivido pela Europa e, especialmente, pela França. O fato inequívoco é que, depois da 2ª Grande Guerra, a economia europeia não havia passado por tamanho aperto. E, como dantes, afloram de maneira dramática as grandes diferenças entre as nações do berço da civilização ocidental. Nesse momento de grande tensão, nada mais natural que todos os fatos inusuais ocorridos na velha Europa sejam interpretados como sinais de derrocada para quem se acostumou a ser encarado e a se enxergar como sinônimo e parâmetro de ?primeiro mundo?. E a crise é grande, verdadeiramente. Tamanha, que até vestir a roupa passa a ser visto como mais um sinal da catástrofe anunciada.