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Nº 5756
Opinião

Sapos do of�cio

RONALD MENDONÇA * O dilúvio de votos obtidos em São Paulo pelo médico Enéas Carneiro vem dando o que falar. Polêmico, 3 vezes candidato derrotado à presidência da República, quase empatando com o Lula, a bizarra configuração anatômica do doutor Enéas

Por | Edição do dia 12/10/2002 - Matéria atualizada em 12/10/2002 às 00h00

RONALD MENDONÇA * O dilúvio de votos obtidos em São Paulo pelo médico Enéas Carneiro vem dando o que falar. Polêmico, 3 vezes candidato derrotado à presidência da República, quase empatando com o Lula, a bizarra configuração anatômica do doutor Enéas dispensaria até abrir a boca para chamar a atenção. O histrionismo cristaliza-se de vez com a peculiar empostação de voz e o famoso bordão terminal: “Meu nome é Enéas”. Pronto. Aí estariam os elementos perfeitos para zombarias de toda ordem, tal como aconteceu nas suas primeiras aparições na TV. É claro que ninguém de bom senso espera que um desconhecido, saído do nada, de cara, obtivesse sucesso. Contudo, o aparente fracasso nos pleitos em que postulava a presidência permitiu, na pior das hipóteses, que o exótico candidato se tornasse conhecido em todo o País. Privado de um tempo razoável - menos de 30 segundos - para qualquer outra coisa a não ser para mensagens telegráficas, Enéas acaba de dar a volta por cima. É como se, de repente, face ao descrédito geral, se reconhecesse o esforço desse homem de aspecto descuidado, com cara de pedinte de rodoviária, em se fazer ser ouvido. Aliás, a atual consagração já vinha se desenhando quando alcançara, nas últimas disputas presidenciais, votação superior a de concorrentes mais experientes. Nunca é demais lembrar que dentre as propostas desse campeão de votos, a mais famosa é a da construção da bomba atômica. Numa época em que o mundo civilizado se propõe a restringir o arsenal nuclear, é impossível proposta mais indecente, mais amalucada. Por outro lado, pouca coisa se sabe sobre esse cidadão a não ser que, antes de entrar na política, mantinha um curso de interpretação de eletrocardiograma para médicos. Ouve-se dizer que, fora o petardo atômico, seu discurso é muito duro com os bandidos em geral - incluindo os corruptos, políticos ou não; com os dirigentes incompetentes e ladrões; com os juízes venais e com as mulheres infiéis. Do mesmo modo é contra o capital estrangeiro. Há quem o associe a grupos fanáticos, como também há os que o comparam ao temível Le Pen, político francês de direita, conhecido pelas postulações radicais. A realidade é que, após romper o juramento público de que nunca seria candidato –“a não ser para presidente”, o controverso barbudo estourou a boca do balão, carregando consigo algumas “malas sem alça” do seu partido - até gente que não teve 3 centenas de votos conquistou um mandato. Pelo visto, os eleitores não deram a menor bola para o lado “ultraconservador” do candidato (ao contrário ?), talvez preferindo apostar na sua aparente honestidade, sufragando livremente o seu nome, sem fraudes, sem compra de votos. Se a escolha foi boa são outros 500. Como dizia a madre superiora: “Ante o inexorável, o jeito é tentar relaxar e curtir”. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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