Opinião
Quem quer ganhar com o recurso p�blico?
Esta semana principia com o previsível ?esticamento? de um problema que já poderia estar, se não 100% resolvido, bem melhor encaminhado. Falamos no imbróglio da transferência dos moradores da favela de Jaraguá. Ulula às vistas de todos o repeteco de uma das mais antigas armações brasileiras: buscar ganho adicional contra o patrimônio público. Essa mazela não se manifesta apenas nas camadas melhor aquinhoadas, como poderia se depreender de alguma análise superficial de casos como o do terreno desapropriado em Rio Largo, onde dezenas de milhões de reais foram o mote para uma possível falcatrua. Obter ganhos privados sobre os recursos públicos é gesto useiro e vezeiro também entre os menos favorecidos economicamente. Vejamos o caso da favela de Jaraguá: como alguém, em sã consciência, se aferraria em ficar morando num casebre infecto ao invés de receber uma moradia novinha em folha, modesta mas imensamente superior ao habitáculo de então? O discurso bonito de ?raízes fincadas no local? perece de imediato quando se percebe que os moradores mais reconhecidos como verdadeiramente trabalhadores do pescado identificam-se com prazer para os repórteres e agradecem aos céus pela transferência. Ao mesmo tempo, a olhos vistos, invasores buscam fincar suas ?raízes? nos barracos ainda não demolidos ou parcialmente desmontados. Outros reclamantes identificam-se como ?não-cadastrados? quando é público e notório que o cadastramento, lento e detalhado, foi feito e refeito mais de uma vez. Por outro lado o argumento de ?só sai quem quer? não parece guardar paridade com outras desocupações realizadas na mesma área de Jaraguá, quando, enfrentando a discordância decidida de todos os interessados, a feirinha de artesanato foi extraída à fórceps da vizinhança do Memorial à República. Espera-se que, nos próximos dias, não se confirme que, apesar dos investimentos realizados para a transferência dos moradores da favela de Jaraguá, a favela de Jaraguá continue como dantes. Ou pior.