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Gestos solid�rios em tempo de desconfian�a

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Em meio ao clima de total insegurança no qual se acha mergulhado o Estado, gestos de solidariedade continuam a ser registrados, reafirmando a sobrevivência e recorrência das ações de boa vontade. Mas, tal é o cenário nefasto, que até esses gestos de amor ao próximo têm que ser muito bem explicados sob pena de interpretações que conduzam ao seu contrário. Este é o caso da faxineira que abrigou em sua casa uma criança cujos pais não recolheram, no tempo devido, da creche onde passa o dia. Ao chegar, atrasada, ao estabelecimento de apoio social onde a menina passa o dia, a mãe encontrou a casa fechada e, na angústia do momento, não atentou para o cartaz que informava o paradeiro da garota (com telefone e nome da pessoa que a estava abrigando). Aterrorizada pelo clima de desordem social, a mãe entrou em desespero e acionou a polícia. No dia seguinte, tudo estava esclarecido, comprovando, felizmente, a sobrevivência das iniciativas solidárias, despojadas de segundas intenções. O episódio, ao ser detalhado pelas reportagens, forneceu também novos dados sobre o abandono ao qual está submetida a população. Os responsáveis pela creche, uma das instituições sociais não governamentais mais respeitadas do Nordeste, informaram que não podem esperar, de portas abertas, por mais tempo depois das 18 horas por causa da infestação de traficantes e viciados na área. ?Não podíamos permanecer na creche [na noite de terça-feira] porque dois jovens fumavam maconha à porta da escola?, informou a diretora da entidade, ao reforçar o porquê da impossibilidade de ser mais tolerante com o prazo para fechar as portas e abandonar o local. Esta é a realidade maceioense: risco amplo, geral e irrestrito. Horários e passos têm de ser cronometrados, inúmeros logradouros precisam ser evitados. Não sem motivo milhares saem às ruas e já não protestam apenas contra o governo, mas contra a política, a polícia, as autoridades em geral. A esperança, presente no gesto da faxineira que levou a criança para sua casa, é a consciência e a força do povo alagoano.

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