Opinião
LUZES QUE APAGAM, VIDAS QUE SE V�O
A morte brutal e inopinada do conhecido médico e professor universitário José Alfredo Vasco comoveu e indignou a comunidade alagoana, sentimentos aos quais me alio. Pelo que sei, não era um homem de finanças culminantes. Prova maior era a idade de sua bicicleta e móvel do crime: 20 anos. A expressa solidariedade cristalizada em inúmeras manifestações é fruto, pois, de suada conquista. Da moral, da sua simpatia, da proverbial serenidade, da ligação com a família e do convívio com os alunos. Mas era sobretudo sob as luzes fluorescentes de um consultório, na sagrada relação médico-paciente, que o Zé Alfredo exercia seu ?poder?. Foram quatro décadas esculpindo imagem de humildade, competência e espírito humanitário, modelo que se impõe aos que hoje ensaiam os primeiros passos na instigante arte de Hipócrates. A Medicina alagoana perdeu um dos seus membros mais corretos. Como tem sido lembrado diariamente, o País está sacudido por irrefreável violência. Nossa Alagoas, nesse quesito, tem se superado. Pessoas humildes, anônimas, como nos recordam os formadores de opinião, morrem aos borbotões e a individualista classe média ignora. As esquerdas, sempre equânimes e justas, talvez estejam a lamentar que a sociedade não se mobilize em passeatas pela paz quando morre um pobre diabo morador de rua. O fato é que a morte de Zé Alfredo não surpreende. Numa visão simplista, a tríade: drogas, omissão governamental e legislação leniente seria o delta de crimes com essas características. Não custa focar nos grandes escândalos. Não faz muito tempo, enquanto rolava ladeira abaixo o conceito de um partido que ?nem roubava nem deixava roubar?, o presidente dessa mesma agremiação vociferava que podia existir alguém com ética nesse País, mas nada se igualava à própria. Naquele momento, como se sabe, o noticiário fervilhava com informações sobre uma das maiores patifarias oficiais, cujo central situava-se a dois metros do gabinete presidencial. Era o famigerado mensalão, até hoje inconcluso. Muitas águas rolaram e muitos homens e mulheres se amaram até chegarmos a Carlinhos Cachoeira e seu braço político, o horrendo ?incorruptível? Demóstenes Torres, versão goiana de Danton. Que se espera de uma população, quando o ?mais ético? dos brasileiros ressurge, gordo, cavernoso e canceroso, depois de driblar Creonte no vale das sombras, tentando chantagear um ministro do STF em prol de um veredicto capcioso?