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Opinião

Z� ALFREDO

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Era fim de tarde de sábado passado. O Zé Alfredo, antes de sair de casa para seu costumeiro passeio diário de bicicleta, deu um beijo em sua esposa Vitória, que, como sempre, brincou com ele pela excessiva descontração com que ia para a rua; calção velho e camiseta regata, também muito surrada: ?Zé, você parece um pedinte. Se ajeita, rapaz!?. O Zé, também como sempre, já tinha a sua resposta pronta: ?Deixa para lá, eu vou assim mesmo. E com essa bicicleta velha, aí é que ninguém vai querer mesmo roubar um cara maltrapilho e sem nada?. Sua cabeça estava, naquele momento, focada em suas netas Pietra (oito meses) e Lis (quatro anos), com quem passara o dia e que tinham ficado de ir passear no Corredor Vera Arruda no fim daquela tarde. Queria aproveitar ainda mais a companhia das netas, suas maiores alegrias dos últimos tempos. Alguns momentos depois, a poucos minutos de sua casa, não foram as adoradas netas que encontrou, mas um único e traiçoeiro tiro, dado pelas costas, o que o afastou definitivamente, para uma viagem sem retorno, não só das suas netas, como do restante de sua família e de seus muitos amigos. Alfredo era natural de União dos Palmares, terra que venerava e o retribuía com igual sentimento. Formou-se na primeira turma da Escola de Ciências Médicas, onde, posteriormente, tornou-se, por concurso, respeitado professor. Há mais de vinte anos, conheci-o. Daí, tanto lá como no Hospital do Açúcar, compartilhamos a lida da Medicina e de seu ensino. Por ser irmão de Tereza Vasco e cunhado de Eduardo Lira, convivemos mais que apenas no ambiente de trabalho: afora a paixão pelas netas, era um sujeito muito sereno e comedido até na alegria: um uísque sem gelo em pequenos copos, tomado moderadamente, o deixava ainda mais relaxado. Amante das nossas praias, conciliava-as, com maestria, com bons livros e boas músicas. Foi folião do Pinto da Madrugada desde seu nascimento. Na noite de sábado passado, fui com o Tenório ao IML, onde seus filhos André, Eduardo e Alfredo estavam desesperados. Uma cena impossível de descrever. No domingo, no Parque das Flores, na hora em que seu corpo descia ao túmulo, todos eles e Vitória se manifestaram exaltando o amor pelo pai, mas também clamando justiça. Zé Alfredo foi levado barbaramente. Poderia e pode ser, a qualquer hora, sem nenhum motivo, qualquer um de nós. A sensação de insegurança é total e absoluta.

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